Os microplásticos ameaçam a vida nos oceanos

Novos estudos estimam que existam 14 milhões de toneladas de microplásticos no fundo do mar.

Os microplásticos são um problema crescente nos oceanos, e perceber a quantidade que existe e a forma como lá vão parar é crucial para combater esta ameaça.

Um novo estudo da Organização de Pesquisa Científica e Industrial da Commonwealth (CSIRO), publicado na Frontiers, estima que existam 14 milhões de toneladas de microplásticos no fundo do oceano. Para a sua investigação, a equipa analisou núcleos de sedimentos de seis locais diferentes na Grande Baía Australiana, a uma profundidade entre 1655 e 3062 metros, e até 356 quilómetros de distância da costa, resultando num total de 51 amostras para análise no laboratório. O grupo descobriu que a quantidade de plástico que flutua na superfície tem uma grande influência na que vai parar ao fundo do mar.

“A massa global estimada que calculámos sugere que o fundo do oceano tem entre 34 e 57 vezes o stock permanente de plástico da superfície.” Além disso, os cientistas afirmam que a quantidade de microplásticos encontrada foi superior à revelada por estudos anteriores. Um outro estudo realizado pelo British Antarctic Survey, pela Liverpool John Moores University e pela Queen’s University Belfast, descobriu que a taxa de poluição por microplásticos no oceano Antártico é semelhante à encontrada no oceano Atlântico. “Este é o primeiro relatório global deste tipo de descoberta que consideramos muito importante para a compreensão à escala global da poluição por microplásticos”, explica Konstadinos Kiriakoulakis, da Liverpool John Moores University.

A equipa recolheu amostras de sedimentos do fundo do mar na Antártida e nas Ilhas Geórgia do Sul e Sandwich: foram descobertos em grande maioria fragmentos de poliéster, polipropileno e poliestireno. Apesar de a Antártida ser uma região remota do planeta, acredita-se que este tipo de materiais tenham lá chegado através de correntes marítimas ou por atividades como a pesca. Os cientistas afirmam que os valores foram muito altos em comparação a ecossistemas menos remotos, o que sugere que a poluição por microplásticos no Oceano Antártico seja maior do que se pensava. “A nossa investigação demonstra que não importa o quão remoto um ecossistema ameaçam a vida nos oceanos seja, ainda assim ele vai mostrar artefactos da influência humana. Temos despejado plástico nos oceanos há cerca de 70 anos, então, em retrospetiva, isto pode não ser muito surpreendente.

O que é surpreendente é que os níveis deste tipo de poluição são comparáveis a regiões moderadamente ou altamente poluídas dos oceanos do mundo”, afirma Eoghan Cunningham, da Queen’s University Belfast. As correntes oceânicas no fundo do mar estão a criar pontos de concentração de microplásticos que abrigam cerca de 1,9 milhões de pequenos pedaços de detritos por metro quadrado. Os investigadores acreditam que as correntes lentas, que fornecem oxigénio e nutrientes para as criaturas do fundo do mar, estão a direcionar o fluxo de plásticos para essas áreas, resultando nos chamados “trechos de lixo” nas profundezas do oceano.

Os especialistas temem que as concentrações de microplásticos tóxicos nessas áreas aumentem o risco de ingestão pela vida selvagem, mas esperam que as suas descobertas ajudem a direcionar a pesquisa sobre o impacto dos microplásticos na vida marinha. Florian Pohl, do Departamento de Ciências da Terra da Universidade de Durham, disse: “É lamentável, mas o plástico tornou- -se um tipo de partícula de sedimento distribuída pelo fundo do mar junto com areia, lama e nutrientes. Assim, processos de transporte de sedimentos, como correntes no fundo do mar, concentrarão partículas de plástico em certos locais no fundo do mar, conforme demonstrado pela nossa pesquisa.”

Mais de 10 milhões de toneladas de resíduos plásticos entram nos oceanos a cada ano, mas o plástico que flutua na superfície do mar representa apenas um por cento. Pensa-se que o resto esteja presente no oceano profundo, mas até agora não se sabe onde os detritos acabaram. Os microplásticos são pequenos pedaços de fibras e plástico com menos de 5 mm de comprimento. Estes microplásticos provêm das fibras de têxteis e roupas que são pequenas o suficiente para passar pelos sistemas de filtro nas estações de tratamento de águas residuais domésticas, bem como redes de pesca e outras fontes, como indústrias de transporte e petróleo e gás.

No oceano, estas partículas de grão fino são transportadas por correntes poderosas para o fundo do oceano, resultando em grandes acúmulos de sedimentos chamados desvios de contornos. “Os resultados destacam a necessidade de intervenções políticas para limitar o fluxo futuro de plásticos para ambientes naturais e minimizar os impactos nos ecossistemas oceânicos”, afirmaram.

Notícia publicada na edição impressa nº1 (Novembro 2020) da revista Green Savers.

Fonte: Green Savers