«TOURADA NÃO MOVE PESSOAS NOBRES»

Porque já estou farta de tanta estupidez e tanta ignorância, pensei seriamente em abandonar esta Causa.

Porém, numa viagem que fiz por estes dias, passei por um prado à beira da estrada, onde vários magníficos bovinos pastavam tranquilamente, como é da natureza deles. Observei-os, por uns momentos, tão indefesos, à mercê de indivíduos que ainda não evoluíram.

Então, ao imaginar que alguns deles estão destinados a ser barbaramente torturados numa arena, para que um bando de sádicos se divirtam, fui invadida por um sentimento profundo e estranho, que me fez recuar. Não, não posso abandoná-los a um destino tão bárbaro. Infelizmente, eles ainda precisam da minha voz, para gritar por eles, porque os BRUTOS andam por aí, apoiados por governantes que também ainda não evoluíram…

TOURO.jpgFonte da imagem:

A tourada é uma hipocrisia nacional

(…) A crueldade tem muitas vertentes económicas e a gente não aceita a crueldade. (…) A minha ideia de civilização e a minha ideia da evolução dos costumes não passa nem pela violência entre marido e mulher e violência caseira que também é tradicional, não passa pelos comportamentos em relação às crianças e as violências que também eram tradicionais, não passa por muitas outras coisas que também são tradicionais e também não passa por achar bem um espectáculo em que um animal é sujeito para gáudio colectivo a espetarem-lhe facas e a torturá-lo.”

– Pacheco Pereira, Quadratura de Círculo, SIC Notícias

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Tourada não é liberdade de “gosto”

Tourada não é coragem, é cobardia.

Tourada não é grandiosidade, é ser-se muito diminuto.

Tourada não é dia festa. É dia de luto.

Tourada não é cultura. É um atentado à civilização.

Tourada não é dignificar. É humilhar e maltratar inocentes.

Tourada não move pessoas nobres. Move psicopatas.

Tourada não é arte. Não se pinta com sangue.

Tourada não é tradição. Já passou à história.

Tourada não é progresso. É um retrocesso da humanidade.

Tourada não é liberdade de gosto. O touro não escolheu a sua.

Tourada não é mais nada do que uma ironia da sociedade, uma hipocrisia, uma prática obsoleta e violenta que é romantizada até por “poetas” deste país que vivem nos armazéns das suas próprias mentes mesquinhas que comparam livros a manchas de sangue como se a tinta deles fosse a mesma.

Cláudia Sousa

Fonte: Arco de Almedina

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Os que “amam” muito os touros e os torturam e matam

Resultado de imagem para José Pacheco Pereira

Simplesmente o mais fantástico texto contra as touradas que li até hoje. Foi escrito pelo José Pacheco Pereira.
Quem fala assim não é gago!
É isto mesmo!

Mário  Amorim


Acabar com as touradas, com a tortura dos touros para satisfação sádica das massas, é um passo no bom sentido.

A ideia de que ser a favor ou contra as touradas é uma questão de liberdade de expressão é um absurdo. Ser a favor ou contra as touradas é uma questão de civilização e, por muito que a palavra esteja gasta, nós sabemos muito bem o que é. É o mundo frágil que nos faz viver melhor, mais tempo, com menos violência do que no passado. É completamente frágil e contraditório, muitas vezes anda para trás e poucas vezes anda para a frente, mas representa o melhor da vida possível, feito por um olhar

É o mundo em que há direitos humanos, em que os homens e as mulheres são iguais, é o mundo em que as mulheres e as crianças são protegidas da violência doméstica, é o mundo em que o direito de viver de forma livre o sexo é garantido, é o mundo em que a tortura, a pena de morte, o genocídio são condenados, é o mundo em que há liberdade religiosa, de opinião, política, etc., etc. Sim, é verdade que é também o mundo em que tudo isto não existe, mas escolham. Pode não ser o mundo que temos, mas é o mundo que desejamos.

Os animais não podem ter “direitos” equiparados aos direitos humanos, mas faz parte de uma sociedade humana que valorize a ética e combata todas as formas de violência olhar para os animais com um sentimento de especial proximidade que está para além da domesticidade. Os movimentos a favor dos animais, ou melhor, os movimentos contra a crueldade com os animais, fazem parte da tradição humanista dos séculos XIX e XX. A ideia central era que o modo como tratamos os animais era um sinal de como tratávamos os homens, a crueldade contra os animais era um sinal de uma violência institucionalizada que não se limitava aos animais, mas se estendia aos homens, mulheres e crianças.

Não me estou a referir a nenhuma das variantes radicais modernas dos direitos dos animais que fazem parte da moda dos nossos dias. Não é isso, não tem que ver com aviários, nem com matadouros, nem com as mil e uma formas de industrialização da produção de alimentos, algumas das quais ganhavam em ser menos cruéis. Nem com a caça. A caça tem um valor económico, e tem um papel no controlo das espécies, e é cada vez mais moldada pela lei de modo a que o seu carácter lúdico seja subordinado a estas necessidades.

Tem que ver com as touradas. Podem dar as voltas que quiserem, mas as touradas são a exibição pública da tortura de um animal, que é esfaqueado para enfraquecer e depois, no caso das touradas de morte — que todos os defensores das touradas desejavam poder ter sem limitações —, ser morto. As touradas vivem do sangue, da dilaceração da carne, do cansaço até ao limite e da morte. Podem ter todos os rituais possíveis, ter toda a “arte” de saracotear à volta de um bicho, mas as touradas não são uma arte, são a exibição circense de um combate desigual entre homens e animais, cuja essência é a sua tortura para gáudio colectivo.

Não é um combate de iguais. Na verdade, os combates de cães e de galos — proibidos não se sabe porquê à luz da permissão das touradas — são muito mais um combate entre iguais do que o homem de faca e o touro sem armas a não ser os chifres, que muitas vezes são embolados. Mas é o sangue e a morte que fazem o espectáculo e, ao serem um espectáculo, são um sinal de barbárie.

O argumento da tradição também não é argumento. Se há coisas que a tradição encobre é um vasto conjunto de práticas que felizmente hoje são consideradas inaceitáveis, desde a violência doméstica à discriminação dos homossexuais, à excisão feminina, à pena de morte, à legitimação da tortura. Se aceitamos que a “tradição” por si só legitima a violência e crueldade, então podemos voltar ao “cá em casa manda ela e quem manda nela sou eu” e toca de lhe bater.

Os argumentos dos defensores das touradas são a versão portuguesa dos argumentos da National Rifle Association nos EUA, que também se identifica como uma “associação de direitos civis” e usa o argumento da tradição para justificar uma sociedade banhada de armas e em que a violência dos massacres é sempre culpa de outra coisa que não sejam as armas.

As histórias ridículas de como os defensores das touradas “amam os touros” (sic), de como prezam a valentia dos animais, de como o “touro bravo” enobrece os campos do Ribatejo, para depois ser trazido à arena de tortura e morte como se esse fosse o seu destino teleológico, a cultura machista da “coragem” perante os mais fracos (o touro é o mais fraco dentro da praça), devem pouco a pouco envelhecer no passado. É isso mesmo que chamamos civilização. O mundo em que vivemos é duro, desigual, injusto, violento. Quem saiba história sabe que não há maneira de o tornar limpinho, higiénico, pacífico, nem em séculos, quanto mais numa geração. Mas acabar com as touradas, com a tortura dos touros para satisfação sádica das massas, é um passo no bom sentido. Porque senão vivemos na pior das hipocrisias em que matar ou tratar mal um cão e um gato pode levar à prisão — e bem —, mas em que no meio de cidades e vilas de uma parte do país podemos aplaudir a tortura, o sangue e a morte.

Fonte: Publico