Arte ou bestialidade?

Encontrei aquele, que para mim, é o melhor e mais brilhante texto escrito até hoje em Portugal, contra a tauromaquia.

Trata-se de um texto, simplesmente fabuloso. E não poderia deixar de o postar aqui no meu blog.

Aqui vai o fantástico texto a que me refiro!

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29-08-12

“… Falei, até agora, de casos mais ou menos escondidos, que podem ser disfarçados com uma dialética aparentemente honesta. Pode-se questionar estatísticas, pode-se duvidar das intenções dos veterinários e também das reportagens que de vez em quando surgem, com câmara oculta, num ou noutro canil. E depois avançar que os animais têm direitos neste país até prova em contrário, acompanhando eventualmente as palavras de imagens de um canil ou uma reserva exemplares. Pode-se também tentar confundir o assunto e desacreditar os defensores dos animais dizendo que estes os comem, e que portanto são hipócritas. Em geral o público não vai perceber a diferença entre comer uma vaca e pontapear um cão, e tomando as coisas como iguais vai virar-se contra os defensores dos animais e desviar-se do assunto em questão.O que ainda não vi poder defender-se, por estar inteiramente visível, ser legal, permitido pelo Estado, encarado como um espectáculo pela sociedade, divulgado pelas televisões e defendido pelos seus fãs como uma das maiores artes nacionais – é a tourada. Aqui não é possível atirar areia para os olhos.A tourada consiste, basicamente, em enfurecer ao máximo um touro numa arena espetando-lhe ferros no lombo, para que ele invista contra os agressores e estes brilhem fazendo acrobacias, como palhaços no circo, para lhe fugir. O touro fica irremediavelmente ferido depois do espectáculo e é então, por misericórdia cristã, abatido. Numa terrinha da fronteira, por especial favor de um ex-presidente (o ‘p’ minúsculo não é acidental) da República chamado Jorge Sampaio, é permitido abatê-lo na própria arena à moda de Espanha, para completar o espectáculo, sendo depois o bicho esquartejado para servir de repasto à população. Nesse caso abriu-se uma brecha na lei para satisfazer a populaça, regredindo face aos outros países europeus, o que demonstra exemplarmente o desprezo que os mais altos governantes conservam face aos direitos dos animais.E a União Europeia falha onde todos os definhados governantes nacionais falharam enquanto não proibir e irradicar este espectáculo, um dos mais atrozes do mundo fora da clandestinidade. Se os direitos humanos são motivo para adiar a adesão da Turquia, os direitos dos animais deveriam bastar para expulsar Portugal e Espanha. Será difícil, porque há muitos influentes, incluindo o presidente citado atrás, que não só o defendem como o glorificam, sendo-lhes a tarefa facilitada pela indiferença da maioria, para quem a crueldade se justifica se for cometida contra bestas. Vejamos de seguida quatro dos seus argumentos…Argumento 1 – A tourada é um espectáculo de coragem; é o pequeno Homem contra a grande Besta, David contra Golias, S. Jorge contra o Dragão.Realmente, vendo 5 minutos de tourada, aquilo parece uma excêntrica ode à coragem com um monte de lantejoulas e florzinhas à mistura. Mas analisando um pouco mais cheira-se o fumo pestilento de uma falácia. Existem lantejoulas e florzinhas, é verdade, e barretes parvos e tudo, mas há menos coragem envolvida na tourada do que num número de trapezistas.Não é preciso uma análise estatística aprofundada para se concluir que há um grande desequilíbrio entre o número de touros mortos e de toureiros feridos. Só isso já faz suspeitar que o confronto não é tão igual como parece e que o risco é na verdade bastante reduzido. Tal se justifica totalmente se olharmos bem para os oponentes desta batalha: o toureiro (designo por “toureiro” todos os que participam na “festa”, dado que uso a palavra pejorativamente, como adjectivo) treina especificamente para aquilo e está armado, enquanto o touro é preparado para não poder usar todas as suas armas: sem anestesia, são-lhe cortadas as pontas dos cornos em zona sensível, enchem-lhe os olhos com uma pomada que o irrita e retira parte da visão, e dão-lhe choques eléctricos nos testículos antes de entrar na arena, para ele ficar mais “bravo” – e mais desorientado. É nestas condições, e sem saber o que o espera, que o animal combate, sem hipótese de sair vivo faça o que fizer.Resumindo, para vermos aqui o “S. Jorge contra o Dragão”, teriam de cortar a ponta da espada ao S. Jorge, besuntar-lhe os olhos com uma substância irritante e espetar-lhe um bastão eléctrico pelo cu acima. Quando for assim, poderemos ver na tourada um espectáculo de coragem. Até lá, pouco há de coragem além da de usar fatos e barretes ridículos.Argumento 2 – Os touros bravos não sofrem porque são pouco sensíveis na região onde são espetados.Não percebo muito da anatomia do touro, mas a anatomia é uma falsa questão, uma “diversão” dos amantes da tauromaquia. Querem fazer crer que, se o touro não sofre, o espectáculo não é cruel. É como se um defensor dos autos-de-fé viesse dizer: “uma pessoa, da forma como era queimada em praça pública, com toda aquela madeira, sufocava antes de sentir as queimaduras – portanto os autos-de-fé não eram cruéis”. É como se outro viesse defender que a Revolução Francesa não foi cruel porque, apesar de se terem decapitado centenas de pessoas em público, a guilhotina era um método que provocava a morte tão rapidamente que a vítima não chegava a sofrer.É, enfim, um argumento próprio de quem usa barretes coloridos e acredita (não lhes suponho má-fé, portanto suponho que acreditam mesmo) que o touro, apesar de ser um animal com ramificações nervosas pelo corpo inteiro, é diferente dos outros e não sofre quando lhe cravam na carne alguns centímetros de ferro ou quando leva choques eléctricos nos testículos.Mas é bom que acreditem nisso, porque um dia, se as modas mudarem, e o espectáculo passar a ser o empalamento de toureiros numa arena, não vão protestar se estes forem devidamente anestesiados.Argumento 3 – Os touros bravos são criados apenas pelo Homem e por isso não têm lugar na natureza; já estariam extintos se não fosse a “festa brava”. Enquanto vivem têm uma vida luxuosa, ao contrário de muitos outros animais.O argumento do bem. O tourada e o toureiro justificam o criador de touros bravos, que assim os cria e trata maravilhosamente – para serem despedaçados em público.Este argumento pressupõe uma coisa muito duvidosa, talvez de propósito: pressupõe que o touro bravo não tem outra finalidade na natureza, ou outro interesse para a humanidade, do que ser despedaçado em público para satisfação de uma minoria de adeptos da crueldade.Deste raciocínio medieval se tira o seguinte: que qualquer animal que não tenha préstimo visível pode, e deve, ser usado em espectáculos de crueldade para divertir um monte de bestas bípedes, ou então extinguir-se. Não há uma terceira hipótese na visão limitada do amante de tauromaquia.No entanto, no mundo civilizado impera uma terceira hipótese que, com maior ou menor custo, tem mantido vivas espécies “inúteis” sem desfazer os seus membros em espectáculos públicos: dando-lhes a categoria de “espécies em extinção” e protegendo-as em reservas. E não necessariamente sem lucro.Dirão, os que têm fé na tauromaquia, que a melhor forma de preservar uma espécie em extinção é matar os seus membros numa arena. Di-lo-ão de formas mais floreadas e subtis, mas no fundo é isso que dizem. O que só mostra que a única coisa que supera a sua atroz falta de sensibilidade é a sua abobinável ausência de juízo.Argumento 4 – A tourada é uma tradição nacional. Acabar com ela seria acabar com uma parte importante da nossa cultura.É capaz de ser verdade, e sendo assim o que ocorre dizer a seguir é: “vamos a isso!”.A escravatura fez parte da nossa cultura durante vários séculos. Fomos o primeiro país a exportar negros para as américas. Porque não manter essa tradição (que no olhar do amante de tauromaquia se justifica porque pensa que uma tradição, sem critério nem justiça, se justifica por si mesma), e mandar os toureiros também para o Brasil? Aí estava uma tradição positiva: escravizar toureiros, pô-los a fazer algo de útil salvando da sua crueldade os animais. Nem era preciso mandá-los para o Brasil: era pô-los cá a dançar em certos antros e bares que aproveitassem não só as suas caríssimas e sensuais roupagens como as suas enormes capacidades acrobáticas, entre uns “bravos” e “oles”.Outros exemplos que refutam o argumento se podem ir buscar à História, mas vale a pena? Tudo vale pena… não, isto não vale. Os outros exemplos caberiam todos numa categoria: a dos direitos humanos. E volta-se à questão inicial: em Portugal os direitos dos animais não existem, e o que não existe não pode mudar nada.Um último conselho, portanto, aos amantes de tauromaquia para se defenderem: estejam calados. O mais silenciosos possível. Quando alguém reclamar contra a “festa”, agrafem a boca – literalmente. Porque, se têm do vosso lado a inexistência dos direitos dos animais num país nesse aspecto medieval, não têm a razão, nem o gosto, nem a sensibilidade, nem nada mais do vosso lado. Apesar de ser compreensível a tendência, não respondam desorientados como um touro numa arena. Pensem em barretes coloridos, para disfarçar, e depois permaneçam calados, aconchegadinhos na boçalidade geral. Mais tarde poderão deslocar-se ao Campo Pequeno e regozijar-se com mais uma vitória da crueldade sobre os animais e os seus defensores, ou ligar a TVI depois das dez da noite e assistir, com as crianças, à tortura de bestas mais pesadas e lucrativas.

Tourada : arte ou folguedo desumano de cobardes? « Riksaint Space

apr:)apr:)apr:)

O humor ao serviço da lógica.
Não são rosas, como no milagre, mas é ironia… e verdade… muita verdade factual!

Fonte: http://forum.autohoje.com/off-topic/6764-tourada-arte-ou-bestialidade-aviso-pg-102-a-121-print.html

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