A ESTOCADA FINAL

ESTOCADA FINAL.jpg

Texto de Rui Leite Melo

Volta e meia, surgem espontaneamente entre nós movimentos cívicos, grupos de opinião ou tão simplesmente vozes isoladas que defendem opiniões, posições e atitudes que, para utilizar uma palavra actual, se tornam “virais”, dado o senso comum em que se sustentam.

E que mais cedo não surgem por conveniente conforto daqueles que não se querem chatear em fazer barulho, deixando a defesa da razão para outros mais afoitos. Como eu…

Uma destas situações tem a ver com divisão (cada vez mais desequilibrada), sobre o destino dos nossos touros que por aí pastam.

Quem diz touros diz touradas, quem diz touradas diz da ainda existente linha ténue que separa o homem civilizado pelo respeito que tem com os seus seres que partilham o milagre da vida.

Pergunto-me porque coube ao gado vacum o indigno e injustificável papel de ser o animal que serve de risota, de raiva e de sede malvadez para os humanos. Atente-se ao seguinte: cães atraem multidões para desfiles de beleza; gatos e coelhos são preciosidades escovadas diariamente e alimentadas ricamente enquanto dormem em locais aconchegantes; pássaros, de que tamanhos forem, são regalo para a vista, competidores em exposições, merecedores de prémios; os cavalos, bem, os cavalos são o supra-sumo do reino animal domesticado, aplaudidos sejam em corridas, seja em outras actividades equestres e/ou de trabalho); em certos peixes investem-se milhares no seu bem-estar.

Até a palavra aquariofilia foi criada para enquadrar tal respeito por tão peculiares bichos. Até as cabras apelam aos nossos mais ternos sentimentos.

E se assim é entre os que dominamos, não é muito diferente o que se passa no reino selvagem, onde quase todas as espécies são protegidas, excepção talvez feita ao mosquito.

Ora, de fora de tudo isto está o dito gado vacum, seja a vaca, o boi ou o touro, os eleitos sem eleições para serem os protagonistas da nossa hipocrisia.

Claro que com tudo o que escrevi até agora, assumo frontalmente o meu desdém absoluto por quem defende touradas, sejam “corridas picadas”, sejam “à corda”, sejam como forem.

E mais me espanta que, após tantos séculos de evolução sócio-intelectual, ainda se discuta a continuidade ou não de tais barbáries.

Meus caros, há nove séculos, quando pela primeira vez se registaram a realização de “touradas”, esquartejavam-se, empalavam-se e queimavam-se pessoas. As coisas mudam.

Daí a minha exultação sobre a crescente adesão à petição intitulada “Corridas picadas nos Açores NUNCA”, resposta pública à alegada intenção de alguns deputados da nossa assembleia em que se legalize a prática tauromáquica “sorte de varas” ou “corrida picada”, nos Açores.

Por amor de Deus, enquanto alguns parlamentos do mundo ocidental gastam milhões da preservação de espécies que não valem mais do que não ser a de existirem, neste fim-de-mundo quer discutir-se quantas bandarilhadas se pode enfiar no cachaço de um animal atirado a uma praça para uma luta desigual e violenta que devia ser riscada, ou melhor, censurada, dos livros de História dos Açores.

O mesmo digo para a tourada à corda. Perdoem-me a ignorância e falta de sensibilidade açórica, mas onde está a graça de dois ou três moçoilos cegos de bêbados fugirem aos tropeções de ou touro (ou vitelo) preso por uma corda ao pescoço. Que masculinidade, que bravura.

Ou… que tacanhez. Melhor seria que tais corajosos machos ocupassem o seu tempo a ver a “Casa dos Segredos”.

Pois é senhores ganadeiros de ilha amiga, possuidores de boa barriga e vistoso bigode, isto dos touros está por um canudo.

Quem manda já gostou mais da coisa, e quem já gostou mais da coisa, tem mais com que se entreter. Naturalmente, as coisas compõem-se. E muito mais depressa com petições públicas.

Termino, acrescentando uma nota pessoal: a minha inimizade e repulsa com a dita tauromaquia surgiu precocemente, muito antes de saber o que seria ter opinião própria.

Foi aquando do surgimento da RTP-Açores.

Num certo dia da semana (ou do mês), havia um programa mais ou menos intitulado “Grande Corrida RTP”. Infindáveis horas a ver arlequins trajando collants de número inferior ao que das suas miudezas aclamavam e, ora a cavalo, ora a pé, era um tal enfiar facas num touro que se babava.

Aplausos, cornetas e mais cornetas, o povo (muita gente fina), exuberava. Tinha eu seis anos.

Quase quarenta anos depois, tropecei na série televisiva “Spartacus”, um desses canais por cabo.

Foi um (infeliz) regresso ao passado. Salve-se, invista-se nas nossas tradições. Mas naquelas que nos orgulhem.

Fonte:

http://www.correiodosacores.info/index.php/opiniao/13956-a-estocada-final

Fonte: http://arcodealmedina.blogs.sapo.pt/a-estocada-final-543258

Anúncios