GARRAIADA: O DUX VETERANORUM DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA DESCONHECE O SIGNIFICADO DE “VIOLÊNCIA”

Que vergonha!

João Luís Jesus, dux veteranorum do conselho de veteranos da Universidade de Coimbra, consulte um dicionário e aprenda o significado de “violência” e sinta as vibrações da ignorância das suas declarações a tanger ao seu redor…

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(Imagem: Arquivo Global Imagens)

Isto que vemos na imagem pode não fazer sangue, mas é violência, é crueldade, é brutalidade exercida sobre um ser senciente, que se vê bruscamente retirado do seu habitat (o que só por si é já uma violência), depois é rudemente enfiado num transporte (o que é outra violência) e depois de várias horas submetido à escuridão desse transporte, sem água e sem alimentos (o que é outra violência) é finalmente e estupidamente atirado a uma arena (o que é outra violência), onde o esperam uma cambada de bêbados que, sadicamente, o torturam de todas as maneiras (o que é o máximo das violências) e ainda que não lhe espetem farpas e bandarilhas e não o sangrem, estão a violentá-lo brutalmente.

E chamam a isto “divertimento de estudantes do ensino superior”?

Disse o dux: «Acabou-se com a parte violenta da Garraiada».

Como disse, João Luís Jesus?

É dux veteranorum do conselho de veteranos da Universidade de Coimbra, diz-se estudante do Ensino Superior, e fala como um ignorante, desconhecendo o significado da palavra VIOLÊNCIA?

Para sua informação, violência é brutalidade, atrocidade, crueldade, não só física como também psicológica, e tudo isso continua a existir na prática primitiva e parva da “garraiada”, que não é tradição na Queima das Fitas de Coimbra, mas tão-só um costumezinho bárbaro e primitivo, infiltrado numa festa que devia ser de estudantes do ensino SUPERIOR e não passa de uma brincadeira de muito mau gosto de rapaziada de baixo nível moral, cultural e social. E até podem dizer que são filhinhos do papá e da mamã, muito endinheirados, porque isto não muda a vossa condição de apoucados.

Ao dizerem que se retirou os (cobardes) toureiros e forcados e montadores de cavalos e os sanguinários bandarilheiros, das garraiadas de Coimbra significa apenas que poderá eventualmente não haver SANGUE. E apenas isso.

Mas sangue não é sinónimo de violência, dux veteranorum.

Você pode ser brutalmente espancado (que é o que acontece aos garraios) e não ficar a sangrar, e isso não significa que não tenha sido vítima de violência.

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Experimente colocar-se no lugar do garraio. Deixe que o agarrem pelos cabelos (uma vez que não tem rabo) e andem consigo às voltas na arena, ao som dos gritos histéricos de uma assistência sádica e sedenta de parvoíce, e depois diga-me se gostou.

O dux, achando que estava a dizer algo muito cultural, afirmou que no lugar do que chamou “novilhada popular“, será introduzida “uma actividade ligada à tauromaquia“, com prática e tradição em Espanha, em que “profissionais” vão dar um “espectáculo de acrobacias, de forma divertida, em que não há qualquer contacto directo com o animal».

Barbarismos vindos de Espanha?

Não terão os falsos estudantes do “ensino superior” nada mais civilizado para se divertirem a não ser à custa do tormento de um animal, que é atirado a uma arena, e mesmo que ninguém lhe toque, está a sofrer horrores psicologicamente, porque o seu lugar não é numa arena, mas sim num prado, a ruminar as ervas pacificamente?

Não conseguirá o dux veteranorum de Coimbra avaliar a situação anormal a que é atirado um animal não humano retirado do seu habitat natural?

Apregoam que a “garraiada”, começará com um desfile de fitados, e termina com a “vacada”, em que estudantes fazem pegas a garraios, sendo “introduzidas regras” para que não haja “tantos estudantes de volta do animal“, protegendo “ao máximo” o garraio e garantindo “o mínimo de contacto“.

Mas serão assim tão incapazes de fazer a vossa festa apenas animais humanos? Não sabem divertir-se civilizadamente, sem ser a torturar animais não humanos, ainda que digam não lhes toquem?

Não são capazes de pensar? De agir conforme a ética humana (sim porque até os animais não humanbos têm uma ética)? E andam vocês a estudar numa universidade para quê?

Ainda de acordo com o dux, «com estas alterações, cujos pormenores ainda estão “em fase de estudo”, será possível anular “a violência que era contestada”, “salvaguardar a integridade do animal” e manter, ao mesmo tempo, “a tradição tauromáquica na Queima das Fitas».

A violência tão contestada continuará a existir, enquanto o vosso divertimento assentar na tortura (ainda que psicológica) de um animal indefeso, inocente e inofensivo, que não tem voz para dizer NÃO QUERO ESTAR ALI, e que sente esse tormento tanto quanto sentiria o dux veteranorum se um bando de terroristas islâmicos o apanhassem para brincar à torturazinha psicológica.

O sentimento de medo é exactamente o mesmo. É testemunho da maior ignorância ou intenção de ludíbrio, o afirmar-se que algum animal em qualquer situação possa não sentir medo e dor, se for ameaçado ou ferido.

A ciência revela que a anatomia, a fisiologia e a neurologia do touro, do cavalo e do homem são extremamente semelhantes. O ADN destes três animais é quase coincidente.

As reacções destas espécies são análogas perante a ameaça, o susto e o ferimento.

Estes pseudo-estudantes do ensino “superior” de Coimbra serão tão incapazes de fazer este raciocínio básico?

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Lamentável que os organizadores da Queima das Fitas não tenham tido a lucidez da Queima das Farpas.
Origem da imagem:

https://www.facebook.com/Queima.das.Farpas/photos/a.1585670385007976.1073741828.1568326173409064/1715122238729456/?type=3&theater

Ponham os olhos na evolução da Academia do Porto, que em boa hora aboliu esta prática mesquinha, medíocre, que só diz da inferioridade e da vulgaridade de quem a executa.

Para terminar, farei minhas as palavras que Carlos Loures escreveu a propósito desta falta de lucidez que se chama tauromaquia:

«Não há tolerância que possa ser invocada para desculpar o gosto pelas touradas, aquilo que em bom português se designa por afición. Como, a não ser por uma tara, ou por uma perversão do carácter, pode alguém gostar de ver um animal a ser torturado? Se o aficionado professa a fé católica, está a pecar, se pensa que é boa pessoa, desiluda-se, é um monstro, se se julga culto, um intelectual, por assim dizer, não pense uma coisa dessas, porque é uma besta. Se é nobre e usa um brasão num anel, nesse caso, está certo – a nobreza diz bem com a tourada – em termos de fé, no plano da ética, no da cultura…

Não há nada para compreender. Quem se diverte com a tortura de um animal é um sádico. Quem procura esconder o sadismo sob uma capa de mística, a não ser que seja nobre, é um estúpido

Evolua, dux veteranorum do conselho de veteranos da Universidade de Coimbra, para poder ser digno de liderar uma academia civilizada.

Fonte: Arco de Almedina

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ANA CLÁUDIA BORDALO, QUEIMA DAS FARPAS: «80% DOS ESTUDANTES DE COIMBRA NÃO SE REVÊEM NA GARRAIADA»

«É de estudantes com esta elevação moral, cultural e social que a Academia de Coimbra precisa. E ao que se vê, 80% dos estudantes não se revêem na barbárie, que também é a garraiada, além da tourada.

Bem-haja Ana Cláudia Bordalo, por ser um exemplo de jovem que vive a modernidade de que Portugal tanto precisa) (I.A.F.)

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09/04/2015

Há 86 anos que a Queima das Fitas de Coimbra organiza uma garraiada no Coliseu da Figueira da Foz, mas há cada vez mais vozes – dentro e fora da academia – que combatem esta “tradição bárbara em pleno século XXI”, nas palavras de Ana Cláudia Bordalo, uma das organizadoras do movimento Queima das Farpas.

Há umas semanas, a Queima das Farpas lançou uma petição para abolir a garraiada e todos os espectáculos com touros da Queima das Fitas de Coimbra, uma acção que lhe garantiu um invulgar palco mediático nacional e que colocou a organização da festa académica entre a espada e a parede. O Green Savers falou com Ana Cláudia Bordalo sobre o movimento, a petição e os espectáculos tauromáquicos, em geral.

Como surgiu a ideia para esta iniciativa e quem a desenvolveu?

A ideia de abolir a tauromaquia é antiga e transversal na sociedade portuguesa. O seu patrocínio pela Universidade – uma instituição que deve representar novos modelos de pensamento – é absolutamente anacrónico, porquanto a única razão apresentada para que se constitua como excepção à lei que protege os animais de serem maltratados é a tradição. Ora o facto de se fazer algo há muito tempo é inaceitável como justificação para se continuar a realizar uma actividade repugnante em termos éticos. A pergunta deveria ser antes: porque ainda não foi abolida esta tradição bárbara em pleno século XXI?

A tradição da garraiada existe, na Queima das Fitas de Coimbra, desde 1929. Na vossa opinião, que hipótese terá a vossa iniciativa de ser levada em conta pelas organizações responsáveis pela queima?

Que quem ganha a sua vida a maltratar animais para fins de entretenimento, se empenhe em assegurar a sua actividade, é compreensível. O que não podemos compreender é que os estudantes do ensino superior se recusem a questionar a legitimidade das actividades que promovem. Entendemos que é difícil exercermos pensamento crítico sobre práticas consideradas comuns na sociedade em que vivemos, mas não é impossível. Acreditamos que, trazendo este debate à comunidade estudantil, a abolição é inevitável.

Ponderam pedir aos estudantes para boicotar o evento ou preparar alguma acção específica para o dia da garraiada?

De acordo com uma sondagem levada a cabo, 80% dos estudantes da Universidade de Coimbra não se revê na garraiada, ou seja, de todas as actividades que fazem parte do programa da Queima das Fitas, a garraiada é, de longe, que reúne menos vontades. Pensamos que é só uma questão desses 80%* fazerem valer as suas razões e deixarem de ser a “maioria silenciosa”.

Acredita que se o tema for discutido a nível nacional – e com o apoio de entidades pró-animal nacionais – ele poderá mais facilmente chegar aos organizadores da Queima das Fitas?
Achamos que é tempo de iniciar o debate a todos os níveis. No entanto, o ensino superior é um mundo autónomo e deve servir de charneira, definir o espírito dos tempos, e não o contrário.

Muitas destas iniciativas, para serem bem-sucedidas, têm de ter consistência temporal. Se não conseguirem acabar com a garraiada este ano, voltarão “à carga” nos próximos?

O nosso movimento só acabará com a abolição de espectáculos de massacre de animais no contexto das festas académicas.

O que poderia substituir a garraiada no mapa de eventos da Queima das Fitas?

Não nos compete a nós apresentar alternativas, pois o objectivo é acabar com o que consideramos inaceitável. No entanto, estaremos abertos a contribuir para a criação de um qualquer outro evento, se todos entendermos que beneficiará a nossa festa.

Coimbra já tinha estado nas notícias, por razões menos abonatórias, devido ao envio de carrinhos de supermercado para o Mondego, depois do desfile da Latada. Por que razão a mais reputada universidade portuguesa continua com tradições tão insustentáveis?

A irreverência estudantil deve manifestar-se de formas menos lesivas.

Qual o seu passado enquanto estudante, idade e a sua ligação a associações ou entidades pró-animais?

Sou estudante de Direito na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, tenho 25 anos. A minha única ligação é ao Grupo Ecológico, secção cultural da Associação Académica de Coimbra, do qual sou sócia e através do qual tento fazer algum trabalho de sensibilização na área dos direitos dos animais.

Que outras pessoas fazem parte deste movimento?

Este movimento engloba pessoas de toda a comunidade, não apenas do meio académico/estudantil, é um movimento de vontades de diferentes pessoas que não se revêem neste tipo de práticas completamente desenquadradas daquele que é hoje o nosso conhecimento em relação aos animais.

*(Dados da pesquisa Culturas Juvenis e Participação Cívica: diferença, indiferença e novos desafios democráticos, coordenada por Elísio Estanque e Rui Bebiano e realizada no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra entre 2003 e 2006. Projecto financiado pela FCT – Fundação para a Ciência e Tecnologia/ Ministério da Ciência e do Ensino Superior, no POCTI/SOC/45489/2002)

Fonte: http://greensavers.sapo.pt/2015/04/09/ana-claudia-bordalo-queima-das-farpas-80-dos-estudantes-de-coimbra-nao-se-reveem-na-garraiada/

Fonte: http://arcodealmedina.blogs.sapo.pt/ana-claudia-bordalo-queima-das-farpas-526415

Petição pela abolição da garraiada e de todos os espectáculos com touros da Queima das Fitas de Coimbra

Atendendo a que:

1. a tauromaquia é uma aberração legislativa, uma vez que a lei portuguesa proíbe expressamente maltratar animais para fins recreativos, exceptuando os espectáculos tauromáquicos por se constituírem como tradição;

2. a universidade deveria ser o baluarte no questionamento de tradições e convenções, propondo caminhos alternativos aos que se conhecem e trilham, promovendo uma cultura de valores como a justiça, a solidariedade, o respeito e o civismo; não uma cultura que ritualiza e glorifica exercícios de domínio, de subjugação e de violência;

3. na sociedade actual o bullying é a forma mais comum e encapotada de violência, contaminando transversalmente as suas estruturas;

4. cerca de 80%* dos estudantes universitários não concordam com a existência da garraiada no contexto das festas académicas;

5. as verbas utilizadas na organização da garraiada poderiam ser canalizadas para actividades mais consensuais, como actividades culturais, desportivas, dinamização dos núcleos e secções da Associação Académica de Coimbra bem como o apoio à saudável integração de todos os estudantes na vida académica;

Entendemos que chegou a altura da Comissão Organizadora da Queima das Fitas deixar de promover essa actividade obsoleta.

Que seja Coimbra, a primeira capital nacional da cultura, em 2003, também a primeira a abolir práticas que obscurecem a aura de uma cidade com nove séculos de história e uma Universidade que se orgulha de ser das mais antigas e prestigiadas da Europa.

Nesse sentido, apelamos à Comissão Organizadora da Queima das Fitas que erradique os espectáculos tauromáquicos do programa da Queima das Fitas de Coimbra.

Coimbra tem mais encanto sem sangue na despedida.

Queima das Farpas, Coimbra, 20 de Março de 2015

* dados da pesquisa Culturas Juvenis e Participação Cívica: diferença, indiferença e novos desafios democráticos, coordenada por Elísio Estanque e Rui Bebiano e realizada no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra entre 2003 e 2006. Projecto financiado pela FCT – Fundação para a Ciência e Tecnologia/ Ministério da Ciência e do Ensino Superior, no POCTI/SOC/45489/2002

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