Tradição sangrenta Espanha tem temporada com mais mortes humanas em touradas dos últimos 90 anos

Jimenez Fortes é derrubado por um touro no San Fermin festival, em Pamplona (Espanha), em Julho. Em Agosto, ele foi atingido novamente enquanto performava em uma tourada, em Vitigudino. Foto: Andres Kudacki/AP

Jimenez Fortes é derrubado por um touro no San Fermin festival, em Pamplona (Espanha), em Julho. Em Agosto, ele foi atingido novamente enquanto performava em uma tourada, em Vitigudino.

No dia 10 de Agosto, na cidade espanhola de Huesca, Francisco Rivera Ordonez permaneceu no centro da arena, vestido em um cintilante “terno de luzes”, da mesma forma como o fez seu pai, há 30 anos atrás.

No entanto, Ordonez e seu pai compartilham mais do que a profissão de matadores. Como o seu pai, Ordonez tem o apelido de “Paquirri”.

E como o seu pai, Ordonez estava prestes a ser chifrado. As informações são do The Star.

Ordonez olhou para o touro de 450 quilos, que tinha sangue escorrendo de suas bandarilhas já embutidas em seus ombros. Com um movimento de pulsos, Ordonez chamou o animal em direção à capa brilhante.

Mas no último segundo, o touro afastou-se da capa e foi direto para o corpo do matador, enterrando o seu chifre de 30 centímetros no abdomen de Ordonez.

Como ocorrera anteriormente, outro Paquirri derramava o seu sangue ao lado do touro.

Enquanto espectadores horrorizados ficavam boquiabertos com a cena, um grupo de homens correu com Ordonez para um hospital. Entre eles, um toureiro de um olho só chamado Juan Jose Padilla – sendo que o seu olho foi lesado igualmente por um “goring” (investida de um touro contra o toureiro resultando em lesão), há quatro anos atrás.

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Javier Jimenez performa em tourada na arena Las Ventas (Madrid, Espanha), no dia 15 de Agosto.

Para os fanáticos por touradas, os ferimentos causados por touros em homens como Ordonez, seu pai ou Padilla são momentos lendários, apesar de sombrios, em uma tradição antiga e encharcada de sangue.

Para os adversários de touradas, no entanto, esta lesão de Ordonez poderá ser igualmente histórica.

Isso porque o “goring” de outro Paquirri está incitando velhas questões sobre o esporte, porém em uma época – e em um país – que tem se posicionado cada vez mais contra a prática de matar touros por prazer.

É “O começo do fim das touradas?”, questionou o jornal El Diario, após o incidente, comentando que duas regiões da Espanha já proibiram o esporte.

Segundo a reportagem, talvez o “goring” de Ordonez tenha despertado emoções tão fortes na Espanha porque aconteceu durante a semana de touradas mais sangrenta da história do país.

Pelo menos oito pessoas morreram enquanto desafiavam touros em arenas só neste verão, taxa muito alta se comparada à de 15 pessoas nos 90 anos entre 1924 e 2014, de acordo com o The Independent.

Nas cidades ao longo da Espanha, os festivais de verão são marcados pelas “corridas de touros”, onde os animais são perseguidos e assediados pelas ruas e atingidos com banderilhas e espadas.

Nos últimos dois meses, touros golpearam homens até a morte nas ruas de Penafiel e Toledo, Lerin e Valencia, Murcia, Castellon e Alicante.

Quatro desses homens morreram nos dias 15 e 16 de Agosto, segundo a BBC.

No mesmo fim de semana, outro toureiro foi ferido. Saul Jimenez Fortes estava performando na pequena cidade de Salamancan (Vitigudino) quando um touro o atingiu debaixo do queixo.

Tanto Fortes quanto Ordonez deverão sobreviver aos seus ferimentos (o pai de Ordonez não teve a mesma sorte, perecendo em 1984 devido à incapacidade dos  médicos em tratar as suas feridas).

Mas mesmo que ambos sobrevivam, pode ser que o seu esporte não venha a sobreviver por muito tempo.

Em 2010, a Catalunha tornou-se a segunda província da Espanha a proibir as touradas, depois das Ilhas Canárias. Cerca de 200 mil cidadãos catalães assinaram uma petição demandando a proibição.

Este é um debate que tem se acalorado há décadas, se não mais. Muitos espanhóis consideram as touradas uma tradição que remonta a séculos passados, enquanto outros, contudo, vêem nelas uma barbárie que deveria ter sido deixada na Idade Média.

Ainda que se pense que as touradas estejam morrendo na Espanha, elas ainda estão longe de acabar. No ano passado, mais de 7.200 touros foram mortos em arenas por todo o país, de acordo com o El Diario.

O esporte ganhou popularidade também entre os norte-americanos depois de ter sido exaltado por Ernest Hemingway em seu livro “Death in the Afternoon”. Hemingway argumentou que as touradas tocavam em aspectos essenciais da cultura espanhola, como o “interesse na morte”.

Muitos espanhóis eram interessados no tema da morte, escreveu ele, “e quando eles podem vê-la sendo determinada, evitada, recusada e aceita por um preço nominal em uma tarde, eles pagam esse preço e vão à arena”.

Chamando a tourada de “arte decadente de todas as formas”, Hemingway disse que um matador “deve ter um prazer espiritual no momento em que mata o animal. Matar de maneira limpa e de uma maneira que conceda prazer estético e orgulho tem sido um dos grandes divertimentos de boa parte da raça humana”.

Mas, após oito mortes humanas em um verão, o suposto “interesse na morte” da Espanha está agora sendo testado.

Os últimos “gorings” também reacenderam o criticismo de outros países.

Após o incidente com Fortes, o comediante e ativista de direitos animais britânico  Ricky Gervais postou um vídeo no Facebook no qual dizia que torceu para o touro.

“A verdade é que eu prefiro que o touro vença”, disse ele. “Eu prefiro que você não vá Iutar contra um touro, mas se você o fizer – se você escolher torturar um animal até a morte em nome da diversão – eu espero que ele se defenda. Autodefesa não é ofensa”.

Fonte: ANDA

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COMUNICADO DO MOVIMENTO CÍVICO ABOLICIONISTA DA TAUROMAQUIA NOS AÇORES (MCATA): NÃO MAIS MORTOS E FERIDOS NAS TOURADAS À CORDA

O Movimento Cívico Abolicionista da Tauromaquia nos Açores (MCATA) lamenta profundamente a morte de mais uma pessoa, neste caso, a de um homem de 62 anos, durante a realização de uma tourada à corda na ilha de São Jorge. Esta morte é mais uma que vem somar-se à de um homem de 78 anos na ilha da Graciosa, em 2013, e à morte de um homem na ilha do Pico, em 2012. Assim, a trágica estatística das mortes nas touradas à corda na região situa-se, no mínimo, numa pessoa morta por ano.

Para além das pessoas que morrem, o número de feridos graves nas touradas à corda é bastante maior, como indicam os casos que chegam a ser conhecidos apesar de, no geral, raramente serem noticiados. No total, o número de feridos graves e ligeiros nos Açores como consequência das touradas à corda estima-se em mais de 300 em cada ano.

Estes números são necessariamente aproximados em virtude dos feridos e mesmo dos mortos resultantes das touradas à corda, não serem mencionados, na maioria das vezes pela comunicação social. Aliás, é lamentável que, no caso da pessoa recentemente falecida em São Jorge, a comunicação social tenha centrado a notícia exclusivamente nas dificuldades da evacuação médica, que não contestamos, chegando mesmo a não referir, muitas vezes, que a causa primeira da morte foram os ferimentos ocasionados durante uma tourada.

Todas estas mortes inúteis e todos estes numerosos feridos, graves ou ligeiros, poderiam ser facilmente evitados com a definitiva abolição das touradas nos Açores e a sua substituição por eventos culturais que, longe de cultivar a violência e a morte, fomentassem a alegria de viver e o respeito pelas pessoas e pelos animais.

É cada vez mais evidente, nos Açores e em todo o mundo, que está na hora de acabar com esta barbárie absurda e sem sentido, permitindo aos povos evoluir e entrar definitivamente num progresso cultural próprio do século XXI.

Porém, longe deste entendimento, as touradas à corda continuam a receber apoios públicos por parte do governo regional e das autarquias açorianas.

Os governantes fecham os olhos à realidade e parecem varrer os mortos e os feridos para debaixo do tapete.

Mas, ainda são também de lamentar as outras vítimas das touradas à corda: os touros. Infelizmente não são raros os casos de animais que chegam a morrer durante as touradas. São conhecidos casos de touros que morreram de esgotamento e outros que morrem ao embaterem contra um muro. São frequentes também os casos de animais que acabam gravemente feridos, perdendo um ou os dois cornos ao embaterem contra as paredes e muros, ou partindo ossos ao escorregar ou saltar nas ruas. É, ainda, comum ver touros com ferimentos, sangrando e sem que por isso se interrompa a festa.

Apesar de tudo isto, lamenta-se que alguns políticos ainda considerem as touradas como simples “brincadeiras” com os animais.

Partilhando o sentir da maioria da sociedade açoriana, o MCATA considera que não é admissível haver mais nenhuma morte nem mais feridos por causa das touradas à corda.

Por último, o MCATA apela às entidades que têm responsabilidade na matéria para que atuem sem mais demora.

Comunicado do

Movimento Cívico Abolicionista da Tauromaquia nos Açores (MCATA)

03/07/2014

Fonte: http://arcodealmedina.blogs.sapo.pt/comunicado-do-movimento-civico-440945