Família diz que Luaty Beirão se recusa a comer e não fala com ninguém

Um dos activistas condenados em Angola por “actos preparatórios de rebelião e associação de malfeitores” protesta contra a transferência “à força” para o Hospital-Prisão de São Paulo, em Luanda.

O activista Luaty Beirão terá iniciado esta quinta-feira uma nova greve de fome, que estará a cumprir sem roupa e em silêncio no Hospital-Prisão de São Paulo, em Luanda, para onde foi levado “à força” na quarta-feira.

Numa mensagem publicada na página oficial de Luaty Beirão no Facebook, lê-se que o rapper foi um de três activistas que se recusaram a ser transferidos da cadeia de Viana para o hospital-prisão – os outros foram Nélson Dibango e Albano Evaristo Bingo Bingo. Um outro preso transferido foi Francisco Mapanda (conhecido como “Dago Nível Intelecto”), condenado a oito meses de cadeia por ter dito em tribunal que o julgamento dos activistas era “uma palhaçada”.

“Eu não quero ir para um sítio só porque supostamente tem melhores condições para nós, quando a maior parte dos reclusos vive encarcerado com condições precárias”, terá dito Luaty Beirão, citado na mensagem publicada no Facebook.

Face a esta recusa – e segundo a mesma fonte –, “durante o dia de ontem, 4 de Maio, os serviços prisionais voltaram à comarca de Viana para buscar os outros quatro activistas, levando Luaty Beirão à força para o Hospital-Prisão de São Paulo”.

“Disseram-nos que ele não quer receber ninguém e que está nu. Não aceitou receber a comida e que está deitado no chão. Não sabemos de mais pormenores”, lê-se na mesma mensagem, que cita uma pessoa identificada apenas como familiar de Luaty.

Ouvida pelo site Rede Angola, a mulher de Luaty Beirão, Mónica Almeida, disse que o activista se recusa a falar com quem quer que seja.

“Ele foi levado ao Hospital-Prisão de São Paulo à força. Não sei que força é que eles usaram. Mas ele já tinha dito que não queria ir para a prisão de São Paulo”, disse Mónica Almeida. “Em Viana, ele já denunciava algumas anomalias, como excessos de prisão preventiva e outras situações menos boas a que os presos eram submetidos. Ele não concordava que tinha que ser levado para um sítio diferente dos outros, talvez com melhores condições, quando a maioria dos presos ainda vive em condições precárias”, cita o Rede Angola.

Os familiares de Luaty Beirão dizem que só se aperceberam da transferência para o hospital-prisão quando se dirigiram à cadeia de Viana para lhe entregar uma refeição.

Também em declarações ao Rede Angola, o porta-voz dos serviços prisionais, Menezes Cassoma, disse que ao todo foram transferidos 12 activistas condenados no mesmo processo, e não confirmou nem desmentiu que Luaty Beirão tenha iniciado uma nova greve de fome.

“Eu sei que ontem [quarta-feira] o Luaty foi transferido para o estabelecimento prisão de São Paulo, onde está nesse momento um conjunto de 12 reclusos. Relativamente ao protesto de fome e nudez ainda não posso confirmar”, disse o porta-voz.

O mesmo responsável disse que a transferência foi feita porque os presos se queixavam das condições na cadeia de Viana. “A direcção, tendo em conta que, aquando da passagem deles pelo Hospital-Prisão de São Paulo, não registou grandes reclamações, optou por detê-los naquele estabelecimento prisional.”

Os 12 activistas a que Menezes Cassoma se referiu foram transferidos da cadeia de Viana para o Hospital-Prisão de São Paulo na terça-feira, e Luaty Beirão, Nélson Dibango e Albano Evaristo Bingo Bingo terão sido levados quarta-feira – do grupo de 17 constam ainda duas mulheres, Rosa Conde e Laurinda Gouveia, que permanecem cadeia feminina de Viana, segundo Rede Angola.

Condenação de activistas reforça ideia de que Angola “vive uma ditadura”

O rapper foi condenado em Março a cinco anos e seis meses de prisão, juntamente com outros 16 activistas, por “actos preparatórios de rebelião e associação de malfeitores” – 13 deles foram detidos em Junho do ano passado, durante uma reunião em que debatiam um capítulo do livro Ferramentas para Destruir o Ditador e Evitar Nova Ditadura – Filosofia Política da Libertação para Angola, do académico Domingos da Cruz.

Os activistas recusaram sempre as acusações e garantiram em tribunal que os encontros semanais que promoviam visavam discutir política e não qualquer acção de destituição do Governo ou actos violentos.

Fonte: Publico

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Carta aos meus companheiros de prisão

Junho vai longe. Passámos muitos dias presos em celas solitárias, alguns sem comer, com muitas saudades de quem nos é próximo. Pelo caminho sentimos a solidariedade da maioria dos prisioneiros e funcionários. Tivemos apoio de família e amigos. Nas últimas semanas, em que mantive a greve de fome que decidimos em conjunto (em Calomboloca), muita coisa mudou. Tive a oportunidade de me aperceber do que nos espera lá fora e queria partilhar convosco o que vi:

Vi pessoas da nossa sociedade, que lutaram pelo nosso país e viveram o que estamos a viver, a saírem da sombra e a comprometerem-se em nossa defesa, para que a História não se repita. Vi pessoas de várias partes do mundo, organizações de cariz civil, personalidades, desconhecidos com experiências de luta na primeira pessoa que, sozinhos ou em grupo, se aglomeram no pedido da nossa libertação. Já o sentíamos antes, mas não com esta dimensão. Muito acima das nossas melhores expectativas. E está longe de abrandar. Todos os dias há notícias de anónimos, personalidades ou instituições que se juntam pela nossa libertação.

No nosso país muita coisa mudou e outras lamentavelmente se repetem. Soube de limites serem ultrapassados, com mamãs espancadas e vigílias à porta de igrejas, reprimidas cobardemente. Isto expôs a fragilidade de quem nos governa. E a prepotência, a incompetência e a má-fé demonstradas na gestão do nosso processo trouxeram-nos até aqui. Cada decisão contra acabou por resultar a favor de mais e maior atenção. Ainda assim, a força parece desproporcional. Não vejo sabedoria do outro lado. Digo-vos o que disse noutras situações semelhantes: vamos dar as costas. E voltar amanhã de novo. Vou parar a greve.

Conseguimos muita atenção em volta da nossa causa. Muita dela recai agora sobre mim. Por isso pedi para me juntar a vocês em São Paulo e, assim, podermos falar a uma só voz.

À sociedade: não vou desistir de lutar, nem abandonar os meus companheiros e todas as pessoas que manifestaram tanto amor e que me encheram o coração. Muito obrigado. Espero que a sociedade civil nacional e internacional e todo este apoio dos media não pare.

Estou inocente do que nos acusam e assumo o fim da minha greve de fome. Sem resposta quanto ao meu pedido para aguardarmos o julgamento em liberdade, só posso esperar que os responsáveis do nosso País também parem a sua greve humanitária e de justiça. De todos os modos, a máscara já caiu. A vitória já aconteceu. E o mérito a seu dono: foi o próprio regime que, incapaz de conter os seus próprios instintos repressivos, foi, a cada decisão, obviando a vã promessa de democracia, liberdade de expressão e respeito pelos direitos humanos.

Abracemos todo o amor que recebemos e agarremos todas as ferramentas. Juntos. Já não somos os “arruaceiros”. Já não somos os “jovens revús”. Já não estamos sós.

Em Angola, somos todos necessários. Somos todos revolucionários. Foi assim que o nosso país nasceu, mas, desta vez, lutamos por uma verdadeira transformação social, em paz.

É com essa boa-fé, que assino

Luaty Beirão

Fonte: Publico

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Luaty coerente – A vitória da razão

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A vitória da razão é o gesto individual ou colectivo de alguém, que com um gesto, desmorona uma máquina bélica, talhada e traçada para degolar os adversários. A vitória da razão é um hino à liberdade! Uma estrofe à coerência. Uma rima à democracia. Um rap à justiça.

Por William Tonet

É um poemário de 36 trilhas, convertidas em nobres dias, numa luta incessante contra as algemas belicistas de um regime monárquico, que faz da força a única razão da sua sobrevivência.

Mas, nesta luta, contra os jovens considerados “frustrados”, José Eduardo dos Santos, foi derrotado, copiosamente derrotado, expondo o seu regime e partido, como nunca antes acontecera, a bestialidade de ideais, a banalidade política, a vulgaridade estratégica, a boçalidade intelectual.

Um monturo de incompetência, vergado à convicção moral de Luaty Beirão, ligado a um balão energético com a temperatura 14+1 de presos políticos, enclausurados nas fedorentas masmorras do regime.

36 dias depois, a luta deu lugar à razão: os frustrados, afinal, estão e moram do outro lado da barricada regimental, desesperados por não conseguirem anestesiar “300 jovens”, como advoga o seu líder.

36 dias depois, o país e o mundo consegue melhor identificar o lobo que se esconde por detrás da pele de cordeiro, a sua perversidade e carácter vampiro, que é indiferente à natureza inocente do cidadão governado.

Diante deste cenário, valeria a pena o sacrifício da nobreza de carácter de um jovem destemido e comprometido com a verdade e as liberdades?

Definitivamente, não!

A dimensão da luta e a sensibilidade, na sua condução, requisitam Luaty Beirão a adiar esta batalha, depois de vencida, não fosse a de Pirro, comparar-se-lhe, para as novas empreitadas que se avizinham, em nome da cidadania.

O país, já não restam dúvidas, está sob colonização “JES/Emepealistica”, mas a vontade e determinação das suas gentes, dos seus povos é cada vez maior, em libertar o país das mãos de uma minoria sedenta de poder, que não vê meios para justificar os macabros fins. Logo, os bons, não podem, não devem, vergar-se, no lamaçal de energúmenos partidocratas, sempre desejosos de abrir champanhe na partida ou no calar de mais uma voz coerente e vertical.

Luaty, o sacrifício, dando a própria vida, faz parte da luta pela justiça, mas andar sozinho e desarmado em carreiros espinhosos, para resgatar a “paz aprisionada” é, também, um sublime sacrifício em prol da justiça e da cidadania.

Tu venceste, por 36…

O regime de Eduardo dos Santos, com a sua insensibilidade de nem sequer saber ser pai do país, perdeu estrondosamente.

As sementes regadas com o suor “luatyano” a partir do “leito-prisão”, ludibriaram os guardas prisionais, humilharam a máquina bélica do regime, estando a germinar novas e mais mentes ávidas de liberdade e democracia.

O Luaty mostrou que, um homem determinado, munido de bandeira branca, pomba de igual cor, balança mental e um sussurro de pureza, faz estremecer a máquina do monstro. Logo, todos democratas unidos, NÓS PODEMOS!

Basta ver, que nunca, em tão pouco tempo, houve da parte do regime, tanta “explicativa carnavalesca”, sobre as ilegalidades, habituados que estavam a vergar os democratas, constitucionalmente consagrados, pela força das armas, intimidação, espancamento, aprisionamento, corrupção e assassinatos.

É verdade que tudo é feito em nome da legalidade de um (des)governo de 40 anos, sem legitimidade democrática, daí ter passado a provação, mais do que durante o conflito militar, nestes últimos 36 dias de greve de fome de Luaty Beirão e excesso de ilegal prisão preventiva dos restantes 14+1.

Uma saloia acusação, parida em mentes demoníacas, por temor aos ventos da liberdade e da democracia, transformou inocentes jovens, que estavam a ler um livro, munidos de 12 lapiseiras, um lápis de carvão, três blocos e uma pen-drive (considerado o arsenal) em golpistas, que atentavam contra o poder omnipotente e de cunho monárquico do Presidente da República de Angola há 36 anos no poder, sem nunca ter sido nominalmente eleito.

E aqui se cruzam duas verdades antagónicas: a primeira é que Luaty Beirão, em 36 dias de greve de fome, mostrou ao país e ao mundo, ser um jovem de causas, ter coerência, convicções e sentido de justiça. Acredita e bate-se em prol da liberdade e da democracia, institutos com consagração constitucional, logo aceita todos os sacrifícios em nome da sã confrontação democrática e sem fraude.

A segunda é que em 36 anos de poder ininterrupto, sem nunca ter sido nominalmente eleito, José Eduardo dos Santos governa a uma só voz, assente numa política de discriminação, autoritarismo, violência, perseguição política, espancamento policiais, assassinatos, corrupção, etc..

Em 36 anos de poder, José Eduardo dos Santos unificou os três poderes (executivo, legislativo e judicial), não sendo nenhum independente, nem no seu seio existe alguém (são partidocratamente escolhidos) com coragem de o ser e capacidade de denunciar as arbitrariedades, tentando imitar o que fizeram os deputados ingleses, em 1628, ao Rei Carlos I, quando este tentou subverter a Magna Carta de 1215, exibindo-lhe a “Petition of Rights”.

Aqui, a cada arbitrariedade os integrantes dos órgãos do poder, ajoelham-se, numa clara demonstração de cega submissão e falta de pensamento. E ao arrepio, paradoxalmente, da própria “constituição jessiana”, JES subjugou a justiça, extrapolando o art.º 119.º da CRA, domou, com benesses e mordomias o MPLA e os intelectuais assimilados, subverteu a democracia, instaurou, sub-repticiamente, uma monarquia adversa às liberdades e democracia.

Mais grave, como retribuição, a carga e violência policial e militar, contra os cidadãos, que recorrem ao art.º 47.º (Liberdade de reunião e manifestação), de forma pacífica e sem armas, o Tribunal (Jaguares) Constitucional, ao arrepio da constituição empossou em sentido contrário ao art.º 114.º JES, sem que este até agora, cumprisse, sequer a formalidade do n.º 3 do artigo atrás citado, logo o exercício presidencial, está ferido de legitimidade, ao não ter suspenso o mandato como deputado, pelo qual foi eleito, como cabeça de lista e não como Presidente da República, cuja eleição teria de ocorrer no interior da Assembleia Nacional.

Ora, como se pode aferir, em 36 anos de poder, são muitas as violações à Constituição e à Lei, que o povo, assiste impávido e sereno e, mesmo assim, não quer mal ao Presidente da República, já o inverso é verdadeiro, como prova este recente episódio.

Falta a JES dimensão de justiça, humanismo real (que não sirva de arma de arremesso pejorativo, como faz, na companhia dos seus muchachos, de tempos em tempos, aos membros da UNITA, não assassinados em 2002) e democracia, para que o mundo e o país real, possam um dia, brindar-lhe com a mesma solidariedade emprestada ao Luaty e a todos os presos políticos, cuja coerência ultrapassa as respectivas vaidades umbilicais. Falta-lhe a defesa de causas nobres, de sentido de justiça, de equidistância, transparência, conciliação, liberdades e justiça.

Daí, no caso vertente, se ter aplicado a máxima de nem tudo que é legal é legítimo, numa oração pura, em prol da justiça e da igualdade, tão arredias do mapa jurídico, social e partidário, pois enquanto a maioria dos políticos se acobarda, alguns intelectuais, com capacidade de inverter o quadro, se vergam às mordomias e, paradoxalmente, muitos padres e bispos fazem “orações mundanas” aos malfeitores, por 30 dinheiros, encobrindo todas as injustiças que cavam crateras, cada vez mais profundas no país, os jovens mostram o seu comprometimento com o que deve ser uma verdadeira e sã JUSTIÇA, num país que se diz democrático.

Vergonhosamente, a justiça em Angola está amarrada, viola a lei e assassina o direito, em nome da visão constitucionalmente monárquica de um homem só, que discricionariamente justicializa tudo, manietando juízes e procuradores, em nome de um cordão umbilical partidário.

O analfabetismo é a arma de arremesso contra a juventude visionária e quem o tentar combater, existem ordens expressas contidas no “Livro Branco da Ditadura” para agir como o fizeraam as autoridades castrenses no dia 20 de Junho de 2015, prender ilegalmente, jovens que estavam a vencer o analfabetismo político lendo um livro. Por esta nobre ousadia para a humanidade, eles estão há mais de 131 dias presos, sob acusação caluniosa do regime.

Por isso, quando no dia 16 de Novembro de 2015, iniciar o julgamento destes heróis da liberdade, o martelo será visto nas mãos de um corpo presente, mas estará teleguiado por uma mente ausente, que ditará uma sentença, já prévia e “futungamente”, elaborada, contra a liberdade e a democracia, por mais que os bajuladores do templo tentem, agora, fazer passar a imagem de uma separação, inexistente de poderes.

Em Angola só existe um poder! Apenas um, “jessianamente” falando, aquele, que Luaty, com a humildade e perseverança dos grandes homens, venceu, desarmado, sem exército privado, sem uma Polícia Nacional Partidária, sem uma comunicação social pública e privada bajuladora, no dia 26 de Outubro, frustrando-lhes, com o fim de uma greve de fome iniciada no dia 21 de Setembro de 2015, a abertura de champanhe, para comemorarem a sua morte.

Exemplos para quê? A morte de Jonas Savimbi e os ataques pejorativos dos deputados jessianos, estão registados na mente colectiva dos nossos povos.

Fonte: Folha 8

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Luaty e o veneno na ponta da lança em Angola

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Rafael Marques, em artigo de opinião para o Expresso, fala de tortura, repressão e das greves de fome de protesto, incluindo a de Luaty Beirão. O jornalista e ativista crítico do regime de Luanda diz que “José Eduardo dos Santos passará a figurar nos livros de História como o ditador que acusou 17 ‘miúdos’ de tentativa de golpe de Estado contra a sua pessoa por meio da queima de pneus”

 

Rafael Marques

 

João Domingos da Rocha, de 28 anos, encontra-se detido na Comarca Central de Luanda há sete anos, em prisão preventiva, por suspeita de furto de um balão de fardo (roupa usada que é doada por atacado). Soube deste caso, e de muitos outros semelhantes, através dos presos políticos Benedito Jeremias “Dito” e Itler Jessy Chiconde, durante a passagem de ambos pela referida comarca.

De um lado, Luaty Beirão, companheiro de causa e também detido no Processo dos 15, chamava a atenção do mundo para a causa da liberdade de expressão em Angola, despertando a solidariedade internacional face à sua persistente greve de fome. Do outro, “Dito”, torturado dias antes por guardas prisionais, e Itler procediam ao registo da crueldade do poder judicial sobre os mais desfavorecidos.

“Dito”, Itler e Luaty, juntamente com outros 12 detidos, aguardam julgamento em prisão preventiva, acusados de rebelião e atentado contra o presidente da República. Como prepararam o “golpe”? Reuniram-se a ler livros e a discutir ideias pacíficas e formas de resistência não-violenta à ditadura.

A onda de solidariedade internacional para com os 15 já é um facto histórico e sem precedentes no que diz respeito à mobilização da sociedade civil em prol da liberdade em Angola.

Também é um facto histórico o fim do culto de personalidade a José Eduardo dos Santos em Angola, por conta da indignação interna causada pela detenção abusiva e injustificada dos 15. Devido ao efeito boomerang da sua política repressiva, os danos na imagem e na legitimidade internacionais do presidente da República são irreparáveis. José Eduardo dos Santos passará a figurar nos livros de História como o ditador que, ao fim de 36 anos no poder e enquanto comandante-em-chefe de um dos maiores e mais bem equipados exércitos de África, acusou, no total, 17 “miúdos” de tentativa de golpe de Estado contra a sua pessoa por meio da queima de pneus. Isto mesmo: o despacho de pronúncia do tribunal afirma que os activistas iriam dirigir-se ao palácio presidencial, queimando pneus, com vista a “despejar o presidente da República se este resistisse à pressão dos manifestantes”.

Enquanto estes bravos jovens aguardam julgamento em prisão preventiva, o foco da atenção pública passa a ser o poder judicial.

Compete-me então, por vontade de ambos, dar a conhecer o trabalho de “Dito” e de Itler, que, enquanto estiveram detidos na Comarca Central de Luanda, criaram mecanismos para que eu pudesse falar directamente com os presos e aceder a informação e a documentos sobre o estado da justiça em Angola. Ambos demonstraram enorme abnegação, solidariedade e sentido de responsabilidade, menorizando o seu próprio calvário e dando prioridade ao registo dos factos e das histórias daqueles que não têm voz.

A 23 de Outubro, o Jornal de Angola publicou uma matéria de capa intitulada “Milhares de reclusos são livres graças ao indulto presidencial”. O texto referia-se ao indulto decretado por José Eduardo dos Santos para a libertação de presos que tivessem cumprido metade da sua pena e que tivessem sido condenados a uma pena de até 12 anos.

“Acredito que se esqueceram de mim. Sou órfão e não tenho família em Luanda, só no Kwanza-Norte, de onde venho”, lamentou João Domingos da Rocha, detido há sete anos em prisão preventiva, sob o processo 2675/08. Caso tivesse sido acusado, julgado e condenado, este cidadão teria cumprido, no máximo, uma pena de cinco anos, em caso de exagero. Este é um exemplo, entre muitos, da prática desumana do poder judicial em Angola.

Há também o caso de Justino Longia, 26 anos, há cinco anos detido preventivamente por suspeita de um crime maior: o furto de dois balões de fardo. Trata-se do processo 2904/10. Outro caso: Bernardo Umba Samuel, 30 anos, está há quatro anos em regime de prisão preventiva por furto assumido do equivalente a 300 euros. Foi apenas ouvido no acto de detenção. Trata-se do processo 5662/11.

Os detidos que reclamam pelos seus direitos, conforme vários depoimentos que recolhi na cadeia, arriscam-se a passar pela Sala de Reeducação. “Eles [agentes da punição] colocam um instrumento ligado à electricidade para descarregarem choques eléctricos nos corpos dos presos que reclamam. Depois dos choques eléctricos, batem nos reclamantes à vontade”, relatou-me uma das vítimas.

O presidente José Eduardo dos Santos tem a responsabilidade legal de dar “instruções directas” ao procurador-geral da República e, de um modo geral, ao Ministério Público. Fá-lo para intimidar, deter e punir aqueles que criticam a sua má-governação. Não o faz para garantir o zelo da legalidade.

A luta pela liberdade de expressão em Angola passa, assim, pela monitorização, investigação e denúncia das arbitrariedades do poder judicial. É este o veneno na ponta da lança que tem trespassado o exercício da cidadania.

Fonte: Expresso

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Angola precisa de ti. Angola precisa de vós

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Luaty Beirão perdeu 23 quilos na greve fome que hoje terminou, iniciando agora “batalhas” pela recuperação física e para provar a inocência em tribunal. Quanto ao regime não perdeu, por que já não tinha, a dignidade. Além disso o tiro saiu pela culatra. Queriam que ele morresse.

O Luaty “percebeu que realmente o objectivo dele já estava alcançado e que agora tem que se preparar para o próximo passo. É uma decisão que ele tomou por causa de um somatório de acontecimentos, de apelos, e está normal. Tem que recuperar, porque foram 36 dias sem comer”, explicou Mónica Almeida, a esposa, após visitar o marido na clínica privada onde o activista está sob detenção, assumindo o “alívio” da família, face ao agravar do seu estado de saúde.

De acordo com a mulher, os apelos da sociedade civil, as vigílias e as “cartas dos colegas”, os restantes 14 activistas detidos no mesmo processo, suspeitos de preparação de uma suposta rebelião em Angola, foram “decisivas para o fim da greve de fome”, numa altura em que o Luaty pesa 62 quilogramas, menos 23 do que quando iniciou a greve de fome, a 21 de Setembro, exigindo aguardar julgamento em liberdade.

“Está a recuperar, mas continua convicto”, explicou Mónica Almeida, reconhecendo que, agora, com a família “mais aliviada”, começam novas batalhas para Luaty Beirão, iniciando um processo de realimentação, durante alguns dias, com base em líquidos.

“Na verdade são duas [batalhas]. Recuperar a forma física e o julgamento”, admitiu.

“Todos os minutos pesavam e pensávamos que pudesse acontecer o pior. Agora estamos bastante mais aliviados, sim”, confessou Mónica Almeida, apesar de ainda apreensiva com os mais de 20 quilogramas perdidos por Luaty Beirão em 36 dias de greve de fome.

Luaty Beirão, que também tem nacionalidade portuguesa, é um dos 15 angolanos em prisão preventiva desde Junho, sob acusação de actos preparatórios para uma rebelião em Angola e um atentado contra o Presidente da República.

Os restantes 14 aguardam julgamento no hospital-prisão de São Paulo, em Luanda, tendo Luaty Beirão pedido anteriormente para sair da clínica privada onde se encontra por precaução para se juntar aos colegas, em solidariedade.

“O julgamento é daqui a 20 dias e para quem esteve em greve de fome é muito pouco para recuperação. Mas certamente que vai estar melhor do que se estivesse em greve de fome”, disse ainda Mónica Almeida.
Luaty terminou hoje a greve de fome de protesto, mas avisou que não vai desistir de lutar pelo fim da “greve humanitária e de Justiça” em Angola.

“Estou inocente do que nos acusam e assumo o fim da minha greve. Sem resposta quanto ao meu pedido para aguardamos o julgamento em liberdade, só posso esperar que os responsáveis do nosso país também parem a sua greve humanitária e de justiça”, afirma Luaty Beirão, na carta divulgada pela família e na qual anuncia o fim da greve de fome, que na segunda-feira completou 36 dias.

“À sociedade: Não vou desistir de lutar, nem abandonar os meus companheiros e todas as pessoas que manifestaram tanto amor e que me encheram o coração. Muito obrigado. Espero que a sociedade civil nacional e internacional e todo este apoio dos media não pare”, escreve Luaty Beirão na mesma declaração, sob o título “Carta aos meus companheiros de prisão”.

De acordo com Mónica Almeida, por instruções de Luaty, a filha de ambos, com dois anos, vai continuar sem visitar o pai.

“Não quer que a filha o veja nessas condições, deitado numa cama. Se tudo correr bem, o melhor é regressar a casa e a filha vê-lo entrar da mesma forma que o viu sair, pela última vez, a 20 de Junho”, concluiu a esposa.

A face do regime

A eurodeputada Ana Gomes saudou hoje a decisão de Luaty Beirão de por fim à greve de fome, que considerou um “grande alívio”, elogiando a sua determinação e dos restantes presos em “mostrar a face do regime” angolano.

“A luta continua, a vitória é certa, é o grito da guerra de independência de Angola, que eu agora ecoo, 40 anos depois, saudando esta decisão do Luaty Beirão de por fim à greve de fome, para grande alívio nosso”, declarou a deputada, à margem da sessão plenária do Parlamento Europeu, que decorre em Estrasburgo, França.

Ana Gomes destacou “a determinação” de Luaty Beirão “e dos outros presos em mostrar a face deste regime, que é realmente antidemocrático e ladrão”, considerando que desempenharam um “papel essencial”, pondo em marcha um movimento de “solidariedade internacional, que é precisa para que Angola efectivamente vá por uma via democrática, que é sem dúvida a aspiração do povo angolano, agora quando celebra 40 anos de independência do colonialismo português”.

Fonte: Folha 8

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Podem ler o que a Doutora Ana Gomes disse, aqui neste artigo: https://blogcontraatauromaquia.wordpress.com/2015/10/27/luaty-beirao-mostrou-face-do-regime-angolano-eurodeputada-ana-gomes/

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“A vitória já aconteceu”

“A vitória já aconteceu”!

Sem dúvida, Luaty. Nada será o mesmo daqui para a frente… A vitória aconteceu também na tua decisão: os heróis mortos servem de exemplo, pela memória; os heróis vivos são o exemplo. Os heróis vivos, mais que exemplo, são líderes naturais das causas. Que não se perdem. E tu és um herói, por mais anti-herói que sejas!

“A vitória já aconteceu”… Como escreve na carta onde anuncia o fim da greve de fome, dirigida aos companheiros de prisão: ” Tive a oportunidade de me aperceber do que nos espera lá fora e queria partilhar convosco o que vi: Vi pessoas da nossa sociedade, que lutaram pelo nosso país e viveram o que estamos a viver, a saírem da sombra e a comprometerem-se em nossa defesa, para que a História não se repita. Vi pessoas de várias partes do mundo, organizações de cariz civil, personalidades, desconhecidos com experiências de luta na primeira pessoa que, sozinhos ou em grupo, se aglomeram no pedido da nossa libertação. Já o sentíamos antes, mas não com esta dimensão”.

Nada vai continuar como dantes!

Fonte: 2711

Duas lições do caso Luaty Beirão

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O processo que envolve Luaty Beirão e a Justiça angolana serve para dar duas lições básicas à diplomacia portuguesa: não vale a pena ter medo de atuar e nunca se deve esperar gestos de compreensão. Que sirva de lição ao Ministério dos Negócios Estrangeiros

 

Ricardo Costa

 

A diplomacia nem sempre se escreve por linhas direitas. Representar os interesses de um Estado ou dos seus cidadãos no estrangeiro não é fácil e muitas vezes exige caminhos ou posições menos óbvias. Quando os casos envolvem países com laços históricos, económicos e culturais fortíssimos, isso torna-se muitas vezes mais complicado. Quando se soma a isto uma ideia de necessidade ou dependência económica é ainda mais complicado.

Basta ver, por exemplo, como correu a visita do Presidente chinês ao Reino Unido, na semana passada, para se perceber que as coisas não são a preto e branco. Mas que, ao mesmo tempo, devem ter limites de dignidade e soberania. Na visita a Londres, o governo inglês nunca escondeu a necessidade de aumentar brutalmente as suas exportações para a China, onde é sistematicamente ultrapassado pela Alemanha. Para conseguir isso, tirou quase todos os casos de Direitos Humanos da agenda pública, mas fez questão de garantir que os abordaria em privado.

Ao mesmo tempo, ninguém ousou impedir algum deputado de se referir à absoluta ausência de democracia na China e à forma como casos como os do Tibete são tratados. Mais relevante, o governo inglês nunca tentou impedir nenhuma manifestação pública contra Xi. Autorizou, isso sim, em simultâneo, manifestações pró-Pequim, que normalmente tinham mais gente que as contrárias… E o maior simbolismo atravessou toda a visita do Presidente chinês, com a mais importante e falada exposição de Londres nas mãos de Ai Weiwei, o magnífico artista chinês, perseguido implacavelmente por Pequim, mas que consegue expor em Londres.

Há muitos séculos que sabemos bem como a diplomacia britânica consegue bater-se pelos seus interesses comerciais sem pôr em causa a sua democracia liberal. Esses dois valores andam a par há muito tempo além Mancha. Por cá, as coisas são um pouco diferentes, sobretudo quando falamos de Angola. Em Lisboa, confunde-se vezes demais respeito com subserviência. E isso quase nunca corre bem.

O caso Luaty Beirão é exemplar. Portugal não pode nem deve interferir na Justiça angolana. Mas não interferir não implica ficar em silêncio ou na sombra ou só atuar no quadro da União Europeia, sobretudo quando algum caso envolve um cidadão que também tem passaporte português e, acima de tudo, quando esse caso tem óbvios contornos políticos. Lisboa não tem que comentar a Justiça angolana – embora o contrário, como bem sabemos, não seja verdade -, mas tem que zelar pelos seus cidadãos no estrangeiro. É uma obrigação diplomática e moral.

Deste caso há duas lições a tirar. Em primeiro lugar, Lisboa atuou tarde. Demorou muito, optou pelo recato e pela eventual pressão europeia, como se em Luanda alguém se preocupasse especialmente com Bruxelas. O nosso embaixador só visitou Luaty na semana passada, um calendário que só é explicável por um misto de ingenuidade e incómodo.

Em segundo lugar, a demora e os paninhos quentes não serviram de nada, como era óbvio. A reação de Luanda foi violenta e desproporcional, acusando de Lisboa tentar interferir na Justiça angolana, como se o caso não envolvesse um cidadão que também é português e não tivesse contornos políticos óbvios.

Ou seja, Lisboa atuou tarde e nem assim foi poupada diplomaticamente. Perdemos tempo e quase perdemos a honra, porque obviamente ninguém no Ministério dos Negócios Estrangeiros terá a coragem de responder em público às graves declarações do embaixador de Angola em Lisboa. Ficamos caladinhos, uma forma de respeito com grande tradição diplomática.

Fonte: Expresso