CONTEÚDO ANDA Leilões de pele aceleram massacre de elefantes africanos

“Se você está procurando o mais resistente e o mais robusto dos couros, o elefante é o couro para você, pois nada se compara à força de uma bota de cowboy de elefante personalizada”, diz o site da Paul Bond Boot Company.

A Paul Bond Boot Company é uma das empresas que transformam a pele dos maiores animais terrestres em botas, carteiras, cintos, malas, casacos, sacos de golfe, móveis, revestimentos para automóveis, entre outros produtos.

Às vezes, as pessoas que não compram peles “exóticas”, mas sabem sobre a ameaça grave que a caça de marfim representa para os elefantes africanos, ficam chocadas ao descobrir que seus couros são oferecidos constantemente e abertamente como parte de uma coleção de peles legalmente negociada que inclui jacaré, caimão, lagarto, python, anaconda, tubarão, arraia, avestruz, canguru e javali.

Fora dos limites de Nova Jersey, Nova York e da Califórnia (EUA), que proibiram a prática, o couro dos elefantes africano devidamente certificado é um produto que, para o Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos EUA e algumas organizações de proteção, não representa nenhuma ameaça para suas vítimas. Há pessoas que receiam que a pele de elefante possa substituir o marfim como motivo de caça e pressionam os Estados Unidos a proibir sua importação.

O comércio legalizado de pele de elefantes começou em 1997, quando as nações sul-africanas do Zimbábue, Botswana e Namíbia convenceram a Convenção sobre Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas de Fauna e Flora Selvagens (CITES) a reclassificar os elefantes protegidos do Apêndice I (que não permite a exportação comercial e é aplicado aos elefantes asiáticos e africanos) para o Apêndice II. A África do Sul teve uma mudança semelhante em 2000.

Inicialmente, a CITES permitiu que os quatro países exportassem apenas peles comerciais, mas, em 2007, autorizou exportações comerciais de couro acabado também da África do Sul, Botswana e Namíbia. Enquanto isso, os visitantes do Zimbábue podem levar para casa os produtos de couro de elefante que compram no país.

Esta é uma boa notícia para um grupo de artesãos de elite e vendedores de produtos de luxo que possuem clientes do universo musical, assim como atletas e estrelas de cinema. Nanette Wheeler Carter, presidente da NGO Connection Africa, sediada em São Francisco, rastreia as vendas de pele de elefante ao redor do mundo e pressionou a Califórnia a proibir a prática.

Em 2012, o rapper Jay-Z exibiu um par de tênis no valor de $ 2.500 do Brooklyn Zoo Jordan feito de peles de elefantes e nove outras espécies pela PMK Customs (Perfectly Made Kicks, anteriormente Pimp My Kicks).

Com o custo de US$ 45 por pé quadrado, a pele de elefante não é barata a menos que seja comparada às peles de crocodilo do Nilo que custam US$ 800 ou mais cada. Porém, a escassez e a magnificência dos animais aumentam o apelo por suas peles.

Após uma queda recente, as importações de pele de elefante dos EUA do Zimbábue e da África do Sul voltaram a ocorrer em 2016. Foram 275 peles inteiras em 2014, 2.079 em 2016, além de milhares de peças de pele menores e artigos de couro de diversos países.

Em todo o mundo, as exportações de pele de elefantes permaneceram estáveis ou aumentaram durante a última década, ultrapassando em grande parte as dos anos anteriores. De 2016 a 2017, segundo os dados da CITES (que são registrados de forma inconsistente), o Zimbábue e a África do Sul juntos exportaram um total de peles de 38.858 elefantes mais outros 609 mil pés quadrados e 21.504 libras de peles e couro. Com uma média de 20 pés quadrados por pele processada, isso significaria mais de 30 mil elefantes.

Isso não inclui as milhares de peças e produtos que foram meramente contados, não medidos, além de menores quantidades de outros países e as exportações ilícitas. De acordo com a National Geographic, pelo menos 70 mil elefantes africanos parecem ter sido vítimas do comércio de pele legalizado durante a última década, o que representa cerca do dobro daqueles que são mortos por marfim todos os anos.

Tenashe Farawo, porta-voz da Zimbabwe Parks and Wildlife Authority (ZimParks), o principal fornecedor de peles dos animais, diz que a maior fonte são os “elefantes que tivemos que matar por causa de conflitos com seres humanos”. Isso foi descrito por críticos e funcionários como um extermínio para controlar a superpopulação de elefantes.

Para piorar, o Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos EUA, que regula as importações de animais selvagens e a organização de proteção World Wildlife Fund (WWF) alegam que “os problemas com os elefantes africanos não se centram em torno do comércio legalizado de pele / couro, mas na demanda insustentável de alguns países, principalmente a China, por marfim”.

Em 2016, o Serviço de Pesca e Vida Selvagem, respondendo a petições que pressionavam por uma maior proteção para a savana da África e os elefantes das florestas, encaminhou uma proposta para classifica-los como duas espécies “ameaçadas de extinção” em vez de uma única espécie “ameaçada”. A alteração provavelmente impediria a importação e venda de pele e outras partes dos corpos dos animais, mas a agência contestou a afirmação de que todas as partes dos animais deveriam ser proibidas.

Um grupo de peticionários, a Humane Society (U.S. e Internacional), o Fund for Animals e o International Fund for Animal Welfare argumentaram que o posicionamento é perigoso e míope. “O Serviço ignora o impacto negativo mais amplo que a comercialização de partes de animais selvagens possui na percepção pública da necessidade de proteger espécies ameaçadas”, disseram.

Em outras palavras: por que as pessoas acreditam que elefantes estão em perigo quando você pode legalmente revestir seu carro com suas peles?

Como diz a Humane Society: “Mesmo que o marfim seja a principal motivação para a caça de elefantes, a regulação do comércio internacional e doméstico por outras partes de elefantes assegurará que as novas restrições no mercado de marfim não tenham o impacto de incentivar o assassinato de elefantes por outras partes valiosas”.

Masha Kalinina, especialista internacional em política de comércio de animais selvagens da Humane Society, observa que a segunda preocupação é urgente agora que a China irá colocar em prática uma ampla proibição de marfim.

“As empresas são inteligentes. Eu não me surpreenderia se houvesse uma mudança no marketing de marfim para produtos de pele. É por isso que nosso propósito é proibir todos os produtos de animais selvagens. A demanda é insaciável, mudando de um item para o outro. Você pode notar isso na forma como as empresas respondem às restrições. É por isso que devemos valorizar os elefantes vivos, não por suas partes”, explica.

Fonte: ANDA