CONTEÚDO ANDA A trágica vida de uma baleia torturada em pesquisas e escondida em parque marinho

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Durante os últimos 17 meses, Kina, uma falsa orca que já trabalhou para a Marinha dos EUA, viveu em um minúsculo tanque no Sea Life Park, no Havaí. O tanque é extremamente raso para ela mergulhar.

Seu tamanho é tão pequeno que Natalie Parra, co-fundadora do Keiko Conservation, o compara a uma piscina de um hotel. “Ela sofre naquele parque – nenhum dos convidados sabe que está lá e ela está basicamente sozinha, o dia inteiro, todos os dias. Ela apenas ‘paira’ [quando os golfinhos flutuam imóveis na superfície]”, disse.

Porém, Kina, que agora tem 40 anos, tem outra distinção duvidosa: ela é a última sobrevivente nos EUA. A vida apática de Kina no Sea Life Park é apenas o último capítulo do que tem sido uma existência extremamente difícil. Ela costumava viver na natureza, mas, em 1987, foi capturada na costa da Ilha de Iki, no Japão.

O que aconteceu em Iki Island é semelhante ao que está acontecendo agora em Taiji. Em ambos os locais, pescadores japoneses emboscaram golfinhos selvagens e outros cetáceos nas enseadas, selecionaram alguns animais para uma vida em cativeiro e mataram o restante, deixando a água vermelha com o sangue da barbaridade.

No entanto, o motivo por trás dos passeios de golfinhos de Iki Island é totalmente diferente de Taiji, Hardy Jones, diretor executivo da Blue Voice, explicou: “A comida nunca foi a principal razão pela qual eles os mataram. Foi a erradicação dos predadores”.

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Os pescadores apreciavam a lula e o peixe-amarelo da costa de Iki, mas temiam que os golfinhos iriam comê-los, então mataram os golfinhos. No final da década de 1980, a pesca na Ilha Iki finalmente acabou, mas a razão exata para isso continua sendo um mistério.

“Uma razão pode ser que eles dizimaram completamente [os golfinhos]. Outra foi que os golfinhos aprenderam a evitar o lugar e a terceira, e talvez a mais provável, é que a elevação da temperatura da água redistribuiu as presas em torno de Iki”, disse Hardy.

Kina foi um dos animais selecionados para o cativeiro em Iki Island em 1987 e ela foi inicialmente transportada para o Ocean Park, um parque marinho em Hong Kong, conhecido por frequentes mortes de animais.

Em novembro de 1987, a Marinha dos Estados Unidos comprou Kina e a transferiu para a estação naval em Kaneohe Bay, no Havaí, onde Kina morava em uma jaula marítima com dois golfinhos, BJ e Boris. A Marinha usou os três animais para pesquisas de eco localização, embora os detalhes desta pesquisa permaneçam vagos, de acordo com Parra.

Em 1993, a vida de Kina mudou mais uma vez: ela, BJ e Boris foram transferidos para outra jaula em Coconut Island, onde a Universidade do Havaí continuou torturando os três animais em pesquisas de eco localização. “Pelo menos, ela tinha Boris e BJ. Ela estava em uma jaula que era grande o suficiente para que os peixes pudessem nadar através dela”, contou Parra.

Já em agosto de 2015, tudo isso chegou ao fim. Segundo Parra, a Universidade do Havaí pagava cerca de US$ 900 mil por ano para manter Kina, BJ e Boris e decidiu se livrar deles. “Eles dizem que o Sea Life Park se aproximou e disse: ‘Nós vamos levá-la’, mas na verdade, eles apenas a leiloaram pelo maior lance, que foi do Sea Life Park”, revelou Parra, acrescentando que a instituição não revelou quanto foi pago por Kina.

A Universidade do Havaí, no entanto, nega veementemente que Kina foi “leiloada”. “Ela foi vendida para o programa que poderia fornecer o melhor apoio, para as melhores pessoas que poderiam cuidar dela, usando os procedimentos de vendas exigidos e estabelecidos pelo Havaí”, alegou Paul Nachtigall, diretor do Marine Mammal Research Program do estabelecimento.

O Sea Life Park é um parque marinho popular em Oahu que oferece ao público experiências de nado com golfinhos e interações com leões marinhos. No entanto, desde a chegada de Kina, ela foi escondida do público em um tanque na parte de trás do parque. Para Parra, isso parece incrivelmente bizarro. Por que um parque marinho público iria querer Kina em primeiro lugar?

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Em um comunicado à imprensa, o Sea Life Park anunciou que os animais continuarão a ser usados em pesquisas, mas Parra não tem certeza se isso ocorreu.

“Nós não sabemos se eles a receberam como um pacote de acordo e realmente não a queriam e só queriam dois golfinhos roazes para shows. É um pouco estranho”, afirmou Parra.

De acordo com Cathy Goeggel, presidente da Animal Rights Hawaii, o Sea Life Park também nunca tentou obter uma licença para transferir Kina de Coconut Island para o Sea Life Park, o que é geralmente exigido pelo Departamento de Agricultura do Havaí (HDOA) quando animais são transferidos no Havaí.

Goeggel descobriu isso quando pediu as licenças dos animais do HDOA por meio da Lei de Liberdade à Informação. “Havia licenças para transferir os dois golfinhos de Coconut Island para Sea Life Park, mas não havia permissão para Kina. Eles estavam ignorando a lei”, disse.

O Sea Life Park teria obtido “autorizações retroativas” em abril de 2016 para a transferência dos dois golfinhos, mas eles ainda não mostraram uma autorização para Kina, de acordo com Parra. “Não faz sentido”, ressalta ela.

No entanto, o HDOA apresentou uma explicação diferente. “Foi anteriormente explicado ao Animal Rights Hawaii que a falsa orca pôde ser movida por causa de uma urgência na deterioração da condição das praias de Coconut Island. Isso causou preocupação com seu bem-estar imediato”, argumentou Janelle Saneishi, oficial de informação pública para o HDOA.

Autorizações à parte, Parra acha que Kina está em um estado miserável no Sea Life Park. “Ela estava na banheira circular antes, mas agora está no tanque quadrado ao lado dele. É superficial e não há absolutamente nenhuma cobertura solar”, destacou.

A Lei de Bem-Estar Animal estabelece que o abrigo natural ou artificial “deve ser fornecido para todos os mamíferos marinhos mantidos ao ar livre para lhes proporcionar proteção contra o tempo ou da incidência direta da luz solar”. No entanto, a sombra não é imposta como obrigatória segundo Amey Owen, coordenadora de relações públicas do Instituto de Bem-Estar Animal (AWI): “Há provisões de sombra, elas foram interpretadas como significando que a sombra é opcional”, disse.

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“A indústria alega que os cetáceos podem evitar o sol ao permanecerem abaixo da superfície da água, como fazem na natureza. Isso é incorreto – a luz penetra até o fundo dos rasos tanques de confinamento, que também são pintados geralmente com cores reflexivas”, esclareceu Naomi Rosa, bióloga marinha do AWI.

Em outras palavras, Kina estaria sofrendo com a luz do sol e provavelmente ficando queimada. Além da falta de sombra, também há preocupações com a limpeza. Tanto imagens capturadas por um drone como fotos recentes mostram que o tanque de Kina é imundo – muito mais sujo do que os outros tanques “em exibição” no parque marinho.

“Um dos membros do Empty The Tanks Hawaii é uma cientista ambiental com ênfase em água limpa e teste de qualidade da água. Ela diz que, na comparação da piscina de Kina com a outra, a de cima é muito mais limpa, pois não há uma cor esverdeada nela devido a um sistema de filtragem ou limpeza de rotina. A água na piscina Kina é quase verde, um indicador claro do excesso de nitrogênio [que muitas vezes é originado por resíduos] na água”, enfatizou Parra.

Kina também possui pouco enriquecimento diário. Ela foi separada de Boris e BJ e deixada sozinha. O Sea Life Park, que é propriedade da Palace Entertainment, recebeu várias advertências no passado por não fornecer a Kina e aos outros animais uma sombra para se protegerem do sol, de acordo com os documentos que Parra obteve por meio da Lei de Acesso à Informação.

O Palace Entertainment também é responsável pelo Miami Seaquarium, onde uma orca chamada Lolita passou 46 anos miseráveis no mais ínfimo tanque de orcas dos Estados Unidos. “Eles foram alertados o tempo em relação à Lolita, mas acredito que estão tentando pagar as multas em vez de corrigir o problema”, disse Parra.

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O Sea Life Park parece estar fazendo tudo o que pode para manter Kina escondida da opinião pública, de acordo com Perra. Eles não apenas a deixam em um tanque na parte de trás do parque, como também teriam feito com que funcionários do Oceanic Institute (que podem ver Kina de sua propriedade, que fica ao lado de Sea Life Park) concordassem em não liberar qualquer foto dela.

“Sei que fizeram todos os estagiários e funcionários do Oceanic Institute assinarem algum tipo de NDA [acordo de não divulgação], e eles não estão autorizados a divulgar quaisquer fotos ou vídeos dela e ouvimos isso de várias pessoas ali”, declarou Parra.

Em outubro de 2016, os membros de Empty the Tanks Hawaii conseguiram obter algumas fotos de Kina no Sea Life Park. “Eles apenas espiaram a cerca, que estava aberta, e fizeram algumas fotos e vídeos dela e partiram”, explicou Parra.

Segundo ela, após a divulgação dessas imagens, o Sea Life Park aumentou a segurança e eles nunca foram capazes de obter acesso ao tanque de Kina novamente.

Determinada a ter outro vislumbre da falsa orca solitária, Parra enviou uma equipe de fotógrafos para uma trilha natural acima do parque marinho há cerca de duas semanas. Os fotógrafos passaram quase duas horas na trilha, mas Kina quase não se moveu o tempo todo.

“Eles disseram que ela estava praticamente flutuando o tempo todo em que estiveram lá em cima. É difícil imaginar que ela não esteja deprimida”, apontou.

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Mesmo com uma interação ocasional com cuidadores, Goeggel disse que não acha que Kina tem alguma satisfação: “Agora, ela é infeliz e não sei quanto tempo irá viver, ela foi capturada em 1987, não é jovem e tem passado por muita coisa”.

Por causa da idade de Kina, e tudo o que ela passou, Parra e Goeggel esperam que esse cenário perturbador mude rapidamente.

“Esperamos compartilhar sua história o suficiente, o que irá pressionar muito o Departamento de Agricultura [do Havaí] para remediar a situação e deixá-la se aposentar. Eles a usaram tanto, é o mínimo que podem fazer, e obviamente queremos tirá-la do confinamento solitário em que está agora. É difícil não se importar quando você ouve sobre sua história”, ressaltou Parra.

“Ela é a última falta orca viva e que sobreviveu à Ilha de Iki, e sua vida foi tão terrivelmente triste que gostaríamos que fosse para um santuário”, afirmou Goeggel.

Ric O’Barry, fundador do Dolphin Project, também acredita que a situação de Kina precisa mudar.

“Kina deve ser aposentada em um santuário em algum lugar no Japão. Um lugar como a Ilha de Mikura, onde os golfinhos são respeitados e protegidos, a história de Kina precisa ser contada. Que melhor lugar para contar essa história do que um santuário de golfinhos no Japão? A verdade nunca poderia ser contada em um dolphinarium”, O’Barry disse ao The Dodo.

Fonte: ANDA

 

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