PS, PSD, CDS e PCP “são cúmplices da ditadura angolana”

José Eduardo Agualusa

PS, PSD, CDS e PCP “são cúmplices da ditadura angolana”

 

Em entrevista à Renascença, o escritor e activista afirma que a presença de quase todos os partidos portugueses no congresso do MPLA reforça a ideia de que Portugal apoia o regime. E prejudica a imagem da comunidade portuguesa em Angola.

José Eduardo Agualusa receia prejuízos para a comunidade portuguesa em Angola com a presença de partidos portugueses no congresso do MPLA.

Com excepção do Bloco de Esquerda, de Os Verdes e do PAN, todos os partidos com assento parlamentar estarão representados no congresso do partido do actual Presidente, José Eduardo dos Santos.

Em entrevista à Renascença, o escritor angolano lamenta que PS, PSD, CDS e PCP estejam a “apoiar” e a “caucionar” o regime ditatorial de José Eduardo dos Santos. “São cúmplices de uma ditadura, porque é isso que existe em Angola”, diz.

Espera alguma novidade deste congresso do MPLA?

Não creio que se possa esperar muito. Parece mais do mesmo. Não só José Eduardo dos Santos é candidato como é candidato único, não houve outra lista concorrente. Há poucas caras novas neste comité central e poucas surpresas. A maior surpresa foi a saída de Ambrósio Lukoki, que é um veterano e um nome histórico do MPLA, que saiu batendo a porta com críticas fortes ao José Eduardo dos Santos e também com críticas ao facto de terem entrado no comité central do partido dois dos filhos do Presidente, que nunca tiveram grande actividade partidária.

Como se pode ler o facto de Eduardo dos Santos ser candidato único à liderança do MPLA, pouco depois de ter anunciado que iria sair da vida política a breve prazo?

A única leitura possível é que essa vontade de sair não existe. O José Eduardo dos Santos já anunciou várias vezes que iria sair e nunca o fez. Dizer que vai sair depois de ganhar as eleições é muito estranho, primeiro, porque em democracia nenhum partido sabe se vai ganhar ou se não ganhar eleições e, depois, porque em democracia ninguém anuncia que vai sair após as eleições, depois de ganhar as eleições, porque ninguém votaria nessa pessoa.

Tudo leva a crer que José Eduardo dos Santos vai perpetuar-se no poder?

O que é possível concluir é a própria falta de democraticidade dentro do partido no poder. Este é o sétimo congresso do MPLA em 59 anos. A UNITA, na oposição, já fez 12 congressos e é um partido bem mais jovem do que o MPLA. Nos congressos da UNITA tem havido listas concorrentes e com grande participação e disputa. No MPLA nada disto existe. Não há outras listas de candidatos, não há ninguém que se atreva a candidatar-se contra José Eduardo dos Santos.

São de esperar momentos conturbados em Angola com a manutenção de Eduardo dos Santos no poder?

A situação, infelizmente, aponta para isso. Há cada vez mais tensão social, mais descontentamento. Esta crise está para durar, porque o preço do petróleo não deverá aumentar.

Esse descontentamento pode levar à saída do Presidente?

Pode. Eu acho que é isso que vai acontecer. Uma vez que o Presidente não parece estar a preparar a sua saída, pelo menos num quadro democrático, a impressão que se tem é que se caminha para o afastamento forçado do José Eduardo dos Santos, mais dia, menos dia.

Como é que olha para esta participação em massa dos partidos portugueses no congresso do MPLA?

Não me parece seja algo de que os portugueses que elegeram esses deputados e que votam nesses partidos se possam orgulhar. Há apenas um partido do Parlamento que não está presente, que é o Bloco de Esquerda, honra lhe seja feita. Todos os outros são cúmplices de uma ditadura, porque é isso que existe em Angola. Esses partidos estão a caucionar uma ditadura, a apoiar um regime totalitário. Quando esse regime cair, todos eles vão tentar afastar-se, mas a história guardará esses nomes.

O cuidado a ter com a vasta comunidade portuguesa em Angola justifica esta participação dos partidos no congresso do MPLA?

Acho que é exactamente o contrário. Quando se pensa numa relação a longo prazo, tem que se pensar na relação entre povos, não na relação entre regimes. Este foi o erro que se cometeu com a África do Sul no tempo do “apartheid”, quando se apoiou o “apartheid” até ao fim. Isso não beneficiou nada a comunidade portuguesa, pelo contrário, prejudicou imenso a comunidade portuguesa, que ainda hoje é vista como uma comunidade que apoiou o “apartheid”.

A longo prazo, esta atitude não beneficiaria em nada a comunidade portuguesa, que hoje já não é vista com bons olhos em Angola. É vista como uma comunidade que sustenta o regime. Há diferentes comunidades portuguesas em Angola, há portugueses que estão em Angola há muito tempo e estão perfeitamente integrados e depois há estes novos portugueses que foram em busca de negócios, tentarem fazer a sua vida sem terem grande ligação aos angolanos, nem procurarem ter essa ligação. São comunidades muito diferentes, mas, de uma forma geral, este tipo de atitude não beneficia nada.

Se houver uma grande alteração no poder político em Angola essa imagem dos portugueses pode ser revertida?

Pode ser ou não ser. Vamos esperar que sim. Há portugueses que estão há muitos anos em Angola, que estão completamente integrados, fazem parte do tecido angolano e são eles, sobretudo, que fazem a imagem de Portugal. Mas existe essa outra imagem. Há muita gente em Angola que vê os portugueses como oportunistas, pessoas que vão apenas em busca de negócios, tentando fazer dinheiro rápido e esse tipo de apoio ao partido no poder. Nas circunstâncias actuais, em que esse poder se está a desagregar e existe uma situação de grande sofrimento para a maioria dos angolanos (a situação a nível de saúde é catastrófica, por exemplo), o apoio ao regime não é bem visto.

A crise e o descontentamento podem causar uma viragem no poder em Angola, em breve?

Acredito que sim. Acho que os partidos políticos da oposição, as organizações não-governamentais, a Igreja, os académicos, todas as forças que pensam Angola, deviam começar a preparar-se para essa transição, para que possa ocorrer de forma pacífica. Existe o perigo de as coisas correrem mal, porque este regime está a fazer o possível para que as coisas corram mal. Não há um processo de transição democrático e, muito pelo contrário, o que acontece é um agravamento diário da situação social. Os dias actuais são muito perigosos, o que pode acontecer a seguir é muito perigoso. Seria bom que a oposição e as forças democráticas dentro do partido no poder, que também existem, se começassem a preparar para a transição, para o período pós-José Eduardo dos Santos.

A Igreja angolana condenou recentemente o actual momento no país. É um sinal de que algo pode estar a mudar em Angola?

Sim, sem dúvida. A Igreja tinha estado calada durante muitos muitos anos e finalmente falou, tomou uma posição muito crítica. Dentro do MPLA também estão a surgir algumas vozes extremamente críticas. Numa entrevista após ter abandonado o comité central, Ambrósio Lukoki acusa o Presidente de estar a degradar a imagem do próprio partido e pede o afastamento do Presidente. São dados novos. Até há pouco tempo era muito difícil escutar vozes dentro do próprio partido a contestar José Eduardo dos Santos. Tudo isso são sinais de grande descontentamento. Eu não tenho dúvida nenhuma que José Eduardo dos Santos vai cair, a dúvida é como vai cair.

Fonte: Renascença

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“É difícil dialogar com regime que não demonstra inteligência” – escritor angolano Agualusa

O escritor angolano José Eduardo Agualusa considerou que a manutenção na prisão dos 17 ativistas angolanos, já condenados, demonstra o “endurecimento” do regime do Presidente José Eduardo dos Santos e a “ausência de inteligência”, o que dificulta o diálogo.

"É difícil dialogar com regime que não demonstra inteligência" - escritor angolano Agualusa

Em declarações à agência Lusa, o escritor luso-angolano, manifestou-se “surpreendido” com o facto de o processo dos ativistas, que cumprem penas entre os dois anos e três meses e os oito anos e seis meses, se ter prolongado por tanto tempo, situação que, defendeu, “é difícil de compreender”.

A 20 de junho de 2015, uma operação do Serviço de Investigação Criminal (SIC) fez em Luanda as primeiras detenções deste processo, que mais tarde ficaria conhecido como “15+2”, em alusão aos 15 ativistas que ficaram meio ano em prisão preventiva e duas jovens que aguardaram o julgamento em liberdade, constituídas arguidas em setembro.

Todos foram condenados por rebelião e associação de malfeitores e encontram-se atualmente a cumprir penas de prisão efetiva.

“Continua a surpreender-me que este processo se tenha prolongado por tanto tempo, que eles tenham sido condenados e com penas tão pesadas. Tudo isto me parece surpreendente, tendo em atenção a injustiça flagrante de todo o processo, a perturbação que causa ao conjunto da sociedade angolana e pelo próprio regime não sair em nada beneficiado deste processo, muito pelo contrário”, disse José Eduardo Agualusa.

“É difícil compreender, não se compreende esta atitude do regime. No dia em que foram presos, pensei que iriam ficar detidos dois ou três dias, como já tinha acontecido antes. À medida que este processo se foi prolongando, fui ficando cada vez mais inquieto, porque o que isto demonstra é não só o endurecimento do regime, mas também uma ausência de inteligência e é difícil dialogar com um regime que não demonstra inteligência, nem sequer para a sua própria continuidade”, sustentou.

O escritor luso-angolano admitiu, porém, que os ativistas presos não cumprirão a totalidade da pena a que foram condenados e que acabarão libertados “em breve”.

“Ou porque o regime não se sustenta – acho que o regime não está de boa saúde – ou são libertados porque o regime os liberta. Mas não acredito que fiquem muito mais tempo. Continuo a não acreditar nisso. Mal seria se cumprissem (a pena toda). Seria muito mau para eles, para as famílias e um mau sinal para Angola”, concluiu.

JSD // VM

Fonte: SAPO24

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Luaty Beirão, UM HERÓI IMPROVÁVEL

O HERÓI INSOLENTE
Henrique Luaty da Silva Beirão, 33 anos, é o improvável herói de um movimento de democratização que cresce todos os dias, tirando o sono ao Presidente José Eduardo dos Santos. Estendido numa cama de um hospital-prisão, em Luanda, em greve de fome, Luaty Beirão está a mudar a História de Angola
 por JOSÉ EDUARDO AGUALUSA

Luaty Beirão, 33 anos, irrompeu no universo político angolano como um vendaval poderoso, numa noite quente de fevereiro de 2011.

Vivia-se em todo o mundo, e em particular no continente africano, a euforia da Primavera Árabe. A 17 de dezembro de 2010 um jovem tunisino, Mohamed Bouazizi, suicidou-se, ateando fogo ao próprio corpo, em protesto contra a injustiça social. A morte de Bouazizi deflagrou uma série de protestos, levando o Presidente Ben Ali a fugir para a Arábia Saudita apenas dez dias mais tarde. O movimento democrático propagou-se depois pela Argélia e Egito. Durante alguns meses os democratas dos países africanos sujeitos a regimes autoritários viveram a ilusão de que a Primavera Árabe floresceria em todo o continente.

Naquela noite, 27 de fevereiro de 2011, perto de três mil jovens juntaram-se nas instalações do Cine Atlântico, em Luanda, para assistir ao concerto de Bob da Rage, um jovem músico luandense radicado em Lisboa. O evento contava ainda com a presença de MCK e de Ikonoklasta, um dos nomes de guerra de Luaty Beirão, à época ainda pouco conhecido fora do universo do hip hop angolano. Era o primeiro concerto em Angola de Bob da Rage. O jovem músico lembra-se muito bem dessa noite: “Disse ao Luaty que entre o público estava um dos filhos do Presidente, o Danilo, que sempre foi meu fã.”

Então, sem prevenir Bob, que foi completamente apanhado de surpresa, assim como os organizadores do evento, Luaty subiu ao palco e mostrou porque escolhera o nome de Ikonoklasta. “Sou um kamikaze!” — Gritou, antes de se voltar na direção de Eduane Danilo dos Santos: “Senhor Danilo vai dizer ao teu papá. Não queremos mais ele aqui. 32 é muito. É muito! (…) Senhor Dino Matross, senhor Virgílio de Fontes Pereira, todos pro caralho! Paulo Flores deu aquela dica, explorador dos oprimidos — fora!”

Na primeira manifestação independente contra o regime de José Eduardo dos Santos apenas apareceram 12 jovens, logo detidos pela polícia. Um desses jovens era Luaty Beirão

Convocou então o público a participar numa manifestação a favor da democracia: “Tragam só panelas, tragam só mambos que não tenham agressão. Muito obrigado.”

A manifestação fora convocada semanas antes, de forma anónima, através das redes sociais, para o dia sete de março, na Praça da Independência. Luaty abandonou o palco, com o público enlouquecido, e Bob da Rage substituiu-o, atuando durante hora e meia. Quando finalmente saiu foi para discutir com Luaty: “Eu estava furioso. Hoje, sabendo tudo o que aconteceu a seguir, compreendo o que o Luaty fez e acho que fez bem. Mas naquela altura achei um desrespeito para comigo, para com os organizadores e até para com o filho do Presidente.”


Pacifista “Tragam só panelas, tragam só mambos que não tenham agressão”, escreveu Luaty antes da primeira manifestação pró-democracia em Angola Clementina — Fazuma

Os dirigentes angolanos receberam a notícia sobre a desabrida intervenção de Ikonoklasta no Cine Atlântico com enorme susto. Alguns dos rostos mais conhecidos do MPLA desfilaram, aterrorizados, pelos estúdios da Televisão Pública de Angola, TPA, nos dias seguintes, enfatizando as enormes diferenças entre os países do Norte de África e Angola. Na intimidade não escondiam o espanto por verem alguém como Luaty, filho de um velho militante do partido, João Beirão, primeiro diretor da FESA, Fundação Eduardo dos Santos, a assumir posições críticas ao regime.

Dias depois, Luaty gravou e colocou nas redes sociais um vídeo a desculpar-se diante de Eduane Danilo, ao mesmo tempo que respondia aos que o acusavam de ser um “filho do regime”: “Eu chamo-me Luaty Beirão, sou filho de João Beirão, o primeiro diretor da FESA, Fundação Eduardo dos Santos, sou portanto, como me acusam, um filho do regime, mas não vejo porque isso me obrigaria a seguir a linha de pensamento do meu pai. (…) Tenho o meu próprio cérebro.”

Fez questão, contudo, de realçar que o pedido de desculpas não era extensivo aos dirigentes políticos que insultara. Lamentava apenas não ter citado mais nomes: “Quando temos uma elite governante que faz discursos com ameaças, sinceramente… A reação teve o mesmo peso e medida, da maneira que podemos fazer. Eu reagi, se houve um abuso do direito de liberdade de expressão, eu estou à espera, e entendo que num país com leis as pessoas que as violam tenham as suas consequências legais. A estas personalidades não sinto o dever de pedir desculpas.”

De como o governo angolano traficou cocaína para Portugal

Nunca se soube ao certo quem convocou a primeira manifestação independente contra o regime de José Eduardo dos Santos. Provavelmente, estudantes angolanos na Europa. O que se sabe é que nesse dia apareceram na Praça da Independência apenas 12 jovens, logo detidos pela polícia. Um desse jovens era Luaty Beirão. Nos meses seguintes, Luaty organizou uma série de outras manifestações pacíficas, várias delas violentamente reprimidas pela polícia ou por milícias armadas, ligadas a altos dirigentes angolanos. No dia 10 de março de 2012, no bairro do Cazenga, em Luanda, cerca de quarenta manifestantes foram cercados e atacados por uma dúzia de homens empunhando bastões, facas e pistolas. Luaty foi para o hospital com uma ferida aberta na cabeça. O economista Filomeno Vieira Lopes, secretário-geral do Bloco Democrático, um pequeno partido político, sem representação parlamentar, mas com relativa influência nos meios intelectuais, procurou refúgio numa residência particular. As milícias forçaram a entrada na residência, agredindo-o com barras de ferro. As imagens de Luaty e de Filomeno Vieira Lopes, com os rostos ensanguentados e a roupa rasgada, provocou grande comoção e revolta em Luanda, inclusive em círculos próximos do poder.

Na manhã de 11 de junho de 2012, Luaty Beirão dirigiu-se ao aeroporto de Luanda. Iria viajar para Lisboa com o objetivo de participar numa digressão do grupo Batida, de que foi integrante, juntamente com Pedro Coquenão. Pouco antes de entrar no avião, um funcionário do aeroporto reconheceu-o, confessou a admiração que sentia por ele, enquanto músico e ativista cívico, e disse-lhe que vira dois polícias a mexer na sua bagagem. Ao chegar a Lisboa, muito nervoso, Luaty foi conduzido para uma sala onde o interrogaram. Na única bagagem que trouxera no porão, uma roda de bicicleta, foi encontrada mais de um quilo de cocaína. A polícia portuguesa terá recebido uma denúncia vinda de Luanda. O juiz de instrução criminal deixou Luaty sair em liberdade, após ter dado como provado que o músico fora vítima de uma cilada.

Não se conhece qualquer reação do Governo português perante esta situação. Vejamos: o Governo angolano tentou incriminar um cidadão que também é português, introduzindo ilegalmente cocaína em Portugal. O que fez Portugal? Nada. Portugal permaneceu em silêncio. Este episódio, que não mereceu grande interesse nem da imprensa portuguesa nem dos partidos na oposição, ilustra de forma exemplar o grau de submissão do poder político e económico em Portugal relativamente ao regime angolano.

A gota de água que fez transbordar o copo

A detenção em Luanda, no passado dia 20 de junho, de 15 jovens ativistas, acusados de tentativa de golpe de Estado não me surpreendeu, a não ser pelo teor da acusação. Poucos dias antes conversara com Luaty, no Facebook, a propósito de uma manifestação que ele estava a organizar. Era algo muito simples — um “buzinão”. Luaty e o seu pequeno grupo de “jovens revolucionários”, ou revus, como se tornaram conhecidos, pretendiam convencer o maior número possível de cidadãos a buzinarem, num determinado dia e hora, a favor da democracia e dos direitos humanos. Pediu-me um depoimento para apoiar a iniciativa e eu enviei-lhe um vídeo, acrescentando não acreditar muito na eficácia do protesto: “Há que ir tentando estas pequenas buzinadelas daqui, manifestações espontâneas dali” — respondeu. E acrescentou: “Temos de estar dispostos para arcar com as consequências da nossa insolência e esperar que cada uma destas pequenas iniciativas possa servir de gota de água, até fazer o copo transbordar. Temos estado a refletir sobre o day after, porque a fruta já está madura e temos de estar preparados para quando ela cair. Não podemos ser apanhados de calças na mão.”

O próprio Presidente da República, José Eduardo dos Santos, defendeu, num discurso pronunciado diante do Comité Central do seu partido, a dois de julho, a acusação de tentativa de golpe de Estado, comparando o sucedido com os dramáticos acontecimentos de 27 de maio de 1977, na sequência dos quais o regime de Agostinho Neto desencadeou uma vaga repressiva, de extrema violência, que custou a vida de milhares de angolanos.

O próprio Presidente José Eduardo dos Santos defendeu a acusação de tentativa de golpe de Estado

A acusação de golpe de Estado baseia-se essencialmente em dois factos: quando foram presos, os jovens revus estavam a discutir a adaptação para língua portuguesa de um ensaio muito conhecido de Gene Sharp, “From Dictatorship to Democracy, A Conceptual Framework for Liberation”, o qual propõe uma série de estratégias de combate contra regimes autoritários por meios pacíficos. Sharp é um conhecido teórico pacifista, tendo sido já por quatro vezes nomeado para o Prémio Nobel da Paz. O livro, publicado em 1994, inspirou também alguns dos jovens egípcios envolvidos nos protestos que derrubaram Hosni Mubarak. O segundo facto apontado pelo Ministério Público angolano para apoiar a tese de tentativa de golpe de Estado é ainda mais extraordinário: os jovens estariam na posse de um documento, nem sequer produzido por eles, no qual se listam personalidades integrantes de um futuro Governo de Unidade Nacional.

Pedro Coquenão, 39 anos, conheceu Luaty em 2002. Na época, Coquenão realizava um programa na Rádio Marginal, o Radio Fazuma. Um dia recebeu uma mensagem de um ouvinte, Luaty Beirão. Não prestou muita atenção ao nome até tropeçar, meses depois, num tema, “Os Mosquitos Inofensivos”, a lembrar Fela Kuti, que o maravilhou. Ao ver os créditos percebeu que o tema era da autoria de Luaty e escreveu-lhe. Iniciou-se assim uma colaboração que se prolongou por alguns anos e teve como resultado, entre outros, o documentário “É Dreda Ser Angolano”, baseado no disco “Ngonguenhação” do conjunto Ngonguenha. Mais do que isso, aquela primeira troca de mensagens deu início a uma bela amizade: “Não é muito difícil gostar dele, concordando ou discordando do que pensa. Ouvimos muito o que cada um diz. Impressiona-me, ao visitá-lo na cadeia, abraçá-lo e sentir-lhe os ossos. Isso custa-me muito.”

Um panafricanista moderno

Antes da intervenção cívica, antes da música, Luaty Beirão concluiu uma primeira licenciatura em engenharia eletrotécnica pela Universidade de Plymouth, no Reino Unido, e uma segunda, em Economia e Gestão, pela Universidade de Montpellier, em França. Após os estudos decidiu que era chegada a altura de conhecer o continente africano. Pareceu-lhe que a melhor maneira de o fazer seria viajando, por terra, de Marrocos até Angola. Fez-se à estrada com 115 euros no bolso, quatro T-shirts, três calções e um saco com dois quilos de frutos secos (Luaty é vegetariano). Contava com a solidariedade da gente simples que fosse encontrando no caminho e não se desiludiu. Quando entrou em Luanda, seis meses mais tarde, ainda lhe sobrava um quilo de frutos secos.

Família O rapper é casado com a fotógrafa Mónica Almeida e tem uma filha, Luena, com apenas dois anos de idade sérgio afonso

Em julho de 2012, Luaty deu uma entrevista ao jornalista Rafael Marques, publicada no site Maka Angola, durante a qual falou sobre esta viagem: “A minha intenção era palmilhar por terra o máximo de países africanos possíveis, beber da experiência, enriquecer-me espiritualmente. Eu não sou crente, mas acredito no ser humano, acredito que existe a bondade ainda suficiente para nos inspirar, para nos servir de combustível, para sermos também pessoas melhores. E isso para mim é que é a manifestação do divino. Porque não tenho religião, não acredito em Deus, sou ateu, mas acredito nos seres humanos. Então, foi essa busca da bondade do ser humano, essa partilha, esse encontro, que eu sabia que iria marcar-me de uma maneira que até hoje não percebo plenamente.”

Serena Mansini, irmã de Luaty por parte da mãe, recorda o maior sonho do irmão: “Ele sempre me disse que gostaria de sair de Luanda, e de ir viver para o interior de Angola. Quer construir uma escola no meio do mato, dar aulas aos miúdos, e ao mesmo tempo cultivar a terra, fazendo agricultura biológica. Durante aquela viagem por África ele parou um tempo no Gana, para fazer um pequeno curso de agricultura biológica.”

Serena, 23 anos, a viver em Lisboa desde a adolescência, foi a responsável por uma recente vigília, no dia nove de outubro, no Largo de São Domingos, destinada a chamar a atenção da opinião pública portuguesa para a situação do irmão e dos restantes presos políticos angolanos: “O meu irmão ensinou-me muita coisa. Aprendi com ele que uma única pessoa pode fazer a diferença. Quando um se levanta, vários outros o podem seguir.”

A aliança entre os “filhos do regime” e os filhos dos pobres

A prisão dos 15 jovens democratas desencadeou um movimento de solidariedade, estruturada a partir das redes sociais. Alguns dos mais ativos elementos desse grupo são rostos muito conhecidos da vida cultural angolana, como o ator Orlando Sérgio, o primeiro negro a representar o Othelo em Portugal; o artista plástico Kiluangi kia Henda, o escritor Ondjaki, o fotógrafo Rui Sérgio Afonso, os músicos Pedro Coquenão e Aline Frazão, a arquiteta e curadora Paula Nascimento e o cineasta Mário Bastos. Nos primeiros vídeos produzidos pelo grupo participaram personalidades angolanas como os músicos Kalaf Epalanga e Paulo Flores, o artista plástico Nastio Mosquito, e ainda figuras públicas de outras nacionalidades, como o escritor moçambicano Mia Couto, o cantor e compositor brasileiro Chico César, ou a espanhola Pilar del Rio, presidente da Fundação Saramago. O grupo organizou vários espetáculos, em Luanda e Lisboa, com o objetivo não apenas de chamar a atenção para a situação dos presos políticos mas também de angariar fundos que permitissem apoiar as famílias dos detidos.

Após o início da greve de fome de Luaty, e de mais três companheiros seus (os quais, entretanto, suspenderam essa forma de protesto), o movimento expandiu-se ainda mais, saindo das redes sociais para as ruas, sob a forma de um conjunto de vigílias, a última das quais, na noite do passado domingo, foi interrompida pela chegada de forças policiais fortemente armadas.

A cada hora que passa, à medida que se deteriora o estado de saúde de Luaty, deteriora-se também a imagem de José Eduardo dos Santos

Um aspeto interessante do “movimento revu” tem a ver com o facto de ter conseguido juntar jovens de classe média e média-alta, pertencentes a famílias dos círculos do poder, e jovens de origem humilde, como Manuel Nito Alves, preso pela primeira vez com apenas 17 anos, por distribuir T-shirts com frases contra o Presidente José Eduardo dos Santos.

Parceiros No conjunto Ngonguenha com Conductor, que viria a revelar-se um dos principais arquitetos do fenómeno Buraka Som Sistema Clementina — Fazuma

Este é já o mais importante movimento cívico a emergir em Angola desde a independência, e o maior desafio enfrentado pelo regime desde o fim da guerra civil. Um pouco à semelhança de Luaty, um “filho do regime”, também muitos dos jovens ativistas que estão por detrás do amplo movimento de solidariedade que cresce em Angola são originários de famílias pertencentes aos círculos do poder político e militar. Nas redes sociais são cada vez mais frequentes os alertas e comentários contrários à atuação dos dirigentes angolanos, por parte de conhecidos militantes e simpatizantes do MPLA.

Ismael Mateus, um dos mais respeitados jornalistas angolanos, publicou na passada terça-feira, na sua página no Facebook, um texto que exprime muito bem a perplexidade e insatisfação de um grande número de angolanos, próximos do partido no poder, mas que não se reconhecem na forma como os dirigentes angolanos estão a enfrentar a presente crise: “Está muito claro aos olhos de todos que o nosso Governo, os nossos dirigentes não estão a saber lidar com a situação. Estão a seguir o caminho da manipulação, da mentira e da mania da perseguição. Em vez de enfrentar de modo adulto e responsável toda esta crise, o Governo está a portar-se como um pai autoritário que confrontado pelos filhos decide trancá-los em casa, para provar quem manda. Mesquinhices, meras mesquinhices, que podem pôr em perigo a estabilidade nacional. Querem-nos reféns do medo, o medo de falar, o medo de pensar, e agora até o medo de orar. Os nossos dirigentes revelam-se assim mais ingénuos do que imaginávamos, ao acreditarem que se consegue parar a força do povo com armas na mão. Um erro político crasso para quem tem a nossa experiência, e um grave problema de memória histórica, que os impede de ver a nossa própria lição, onde todo o poder militar colonial não conseguiu impedir o grito pela liberdade.”

Nos próximos dias, nas próximas horas, não se irá jogar apenas o destino de Luaty Beirão. Irá jogar-se também o destino de José Eduardo dos Santos. O Presidente angolano ainda vai a tempo de libertar todos os presos políticos e de retomar o processo de democratização. A cada hora que passa, à medida que se deteriora o estado de saúde de Luaty, deteriora-se também a imagem de José Eduardo dos Santos.

Espero que Luaty possa regressar a casa, muito em breve, para abraçar a esposa, a fotógrafa Mónica Almeida, e a filha, a pequena Luena, com apenas dois anos de idade. Não poderá tão cedo, imagino, cumprir o seu sonho de construir uma escola algures na Huíla, de onde é originária parte da família (tem também raízes em Aveiro), e dedicar-se ao ensino e à agricultura biológica. Mas será — já é! — um herói vitorioso. O que existe hoje em Angola ultrapassou a simples vaga de solidariedade com um grupo de jovens injustamente presos, para se transformar num verdadeiro movimento pró-democracia. O que quer que venha a acontecer, algo mudou para sempre. A História de Angola não será a mesma e Luaty Beirão faz parte dela.


Nicolau Santos

AS LETRAS DA PALAVRA LIBERDADE

Ironia das ironias, são os filhos da elite angolana, os que tinham posses para os colocar a estudar no exterior, a viajar, a conhecer o mundo, a ter acesso às novas tecnologias, que lideram este movimento

Em Angola, qualquer história tem sempre muitas histórias. A greve de fome que o ativista Henrique Luaty Beirão decidiu fazer (e que no momento em que escrevo ainda não se sabe como vai acabar) é mais um desses extraordinários exemplos, que não pode ser isolado das fissuras que a brutal quebra do preço do petróleo, a esmagadora fonte de receitas do Estado angolano, tem vindo a provocar no plano político.

Já não se trata apenas do mal-estar resultante dos sucessivos adiamentos para José Eduardo dos Santos abandonar a presidência da República. Depois de muito se ter especulado que só cumpriria metade do atual mandato, o Presidente colocou um ponto final nessas especulações e não só garantiu que ficará até 2017 no palácio cor-de-rosa como deixou entreaberta a porta para se voltar a recandidatar pelo MPLA para um último mandato, que o levaria a ficar no poder até 2022.

Recorde-se que José Eduardo escolheu para seu vice-presidente Manuel Vicente, nome que impôs ao comité central do MPLA, que o aceitou sem nenhum entusiasmo e com evidentes reservas. Mas o certo é que, a partir daí, o guião presidencial seguiu a cartilha do costume. Vicente, que era há mais de uma década o todo-poderoso presidente da Sonangol, a mais importante empresa angolana e aquela que capta grande parte dos recursos de que necessita não só o Estado angolano como a elite que suporta o regime, abandonou a empresa para ocupar o cargo político que supostamente o levaria a suceder a curto prazo a Dos Santos. Perdeu assim o imenso poder que detinha por estar à frente da Sonangol e conhecer a fundo os segredos do trânsito do dinheiro gerido pela empresa. Depois, o Presidente retirou-lhe a esperança de passar a liderar Angola a curto prazo. E, antes do verão, um relatório divulgado pelo seu sucessor, sustentando que a Sonangol se encontrava em “falência técnica”, atingiu-o em cheio naquilo que era verdadeiramente a razão por que supostamente tinha sido escolhido para vice-presidente: a sua proclamada competência técnica.

Os sinais de inconformismo têm vindo entretanto a alastrar por toda a sociedade angolana. Antes do verão dois casos demonstraram que José Eduardo dos Santos já não controla de forma absoluta o aparelho de Estado. Tendo reunido com o presidente do Supremo Tribunal de Justiça, Rui Fonseca, disse-lhe que iria ser substituído no cargo, já que o seu mandato expiraria em junho deste ano. Não foi esse, contudo, o entendimento do visado. Fonseca disse ao Presidente que, na sua opinião, o seu mandato só termina em junho de 2017, pelo que se manteria em funções até lá. E assim está.

O outro caso teve a ver com a pretensão do Presidente em substituir o chefe do Serviço de Inteligência e Segurança Militar, general José Maria, de 72 anos. Também este recusou e mantém-se em funções. Mais recentemente, em meados de setembro, José Eduardo encarregou o ministro da Defesa, João Lourenço, de negociar os contratos de novos equipamentos militares com Pequim. Ora, até agora uma tal missão cabia, de forma inequívoca, ao general Kopelipa, chefe da Casa de Segurança da Presidência e pessoa do círculo mais íntimo e restritíssimo do palácio presidencial.

Os sinais de que existe algum problema entre o Presidente e Kopelipa, que ganhou nos últimos anos um enorme protagonismo político e económico (e Dos Santos não gosta manifestamente de situações dessas, tirando o tapete a quem atinge esse estatuto e pode começar a constituir uma ameaça para si) acentuam-se ainda com a informação de que o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, Sachipengo Nunda, foi ‘orientado’ no sentido de passar a despachar diretamente com o Presidente sem passar por Kopelipa. É claro que pode haver outra explicação e um dos ‘mujimbos’ (boatos, rumores) em que Angola é fértil aponta para a deterioração da saúde do velho general, que estaria assim interessado em se dedicar apenas à sua vasta vida empresarial.

Também no início de setembro, Roberto de Almeida, vice-presidente do MPLA, que já foi presidente da Assembleia Nacional e membro do Conselho da República, escreveu ao Presidente a dizer que não quer candidatar-se de novo ao cargo no próximo congresso do partido em agosto de 2016. E há mais algum tempo, no início de 2014, tinha sido a vez de Lopo de Nascimento, um dos históricos do MPLA que chegou a ser primeiro-ministro, a renunciar ao cargo de deputado, deixando elogios na despedida a Lúcio Lara, uma das principais figuras da luta pela independência do país e que é considerado um homem impoluto, a Mendes de Carvalho, outro lutador desde sempre pela independência de Angola e uma voz corajosa em defesa dos direitos dos presos políticos no país nos anos 70 e 80, e a Mfulumpinga Vítor, ex-deputado de um pequeno partido, que corajosamente denunciou diversos casos de corrupção, sendo assassinado em condições que continuam por esclarecer.

Todos estes sinais de que José Eduardo dos Santos já não controla tudo o que acontece no aparelho político, militar, judicial e da segurança, a par das críticas larvares mas crescentes ao regime desembocam na forma como estão a ser tratados os 15 ativistas angolanos que se encontram detidos há mais de três anos sob a acusação estapafúrdia de estarem a preparar um golpe de Estado e o assassínio do Presidente. Um empresário radicado há muitos anos em Angola disse ao Expresso que esta forma de atuação “não faz sentido nenhum. José Eduardo dos Santos está a perder a oportunidade de se afirmar como o pai da nação, de demonstrar ser a pessoa bondosa que muitos dizem que é e de estender a mão aos desavindos”. O professor universitário e especialista em questões africanas, Manuel Ennes Ferreira, concorda: “Não consigo perceber a lógica. Só têm a perder.”

É claro que não é de excluir que haja uma ala do partido que pense que esta é uma oportunidade para endurecer o regime, reprimindo as manifestações a favor da libertação dos detidos que têm vindo a ocorrer na Igreja de São Domingos, junto à Cidadela, e noutros locais de culto em Luanda, com as poucas centenas de pessoas presentes a segurarem velas. Mas o certo é que o aparato policial tem sido enorme: cães, carros militares equipados com canhões de água, polícia antimotim com armas na mão, fazendo detenções e invadindo a igreja.

O regime recusa falar na greve de fome. Esta semana, a TPA, televisão pública angolana, foi à prisão filmar Luaty e retratou-o assim: apresenta-se em “passo lento, falta de firmeza, amparo permanente” como “consequência de um comportamento diferente em relação aos alimentos”. O comissário prisional, Manuel Ferreira, afirmou que o estado de saúde de Luaty decorre de “algumas rejeições de ingestão de alimentos”. O presidente e os seus conselheiros querem assim desvalorizar o ato de Luaty e a prisão dos ativistas e passar um sinal de irredutabilidade à comunidade internacional. Contudo, há uma mudança significativa. É que o país, que nadava em dinheiro e arrogância há seis meses, viu agora secar a árvore das patacas e tem de voltar a pedir financiamento internacional. E quando não se tem dinheiro é usual que os credores emprestem mas que muito cinicamente exijam o cumprimento dos direitos humanos.

Uma última nota para sublinhar que, ironia das ironias, são os filhos da elite angolana, os que tinham posses para os colocar a estudar no exterior, a viajar, a conhecer o mundo, a ter acesso às novas tecnologias, que lideram este movimento contra José Eduardo dos Santos e o regime angolano. Luaty Beirão é filho de João Beirão, já falecido, que não só esteve ligado ao aparelho repressivo da DISA, a polícia política angolana do pós-independência, como foi um indefetível apoiante de José Eduardo dos Santos, sendo mesmo o primeiro presidente da fundação que leva o nome do líder da nação angolana. O irmão de João Beirão, Henrique, também já falecido, foi igualmente um dos torcionários da DISA no período mais repressivo do regime entre 1975 e o início dos anos 90.

Como nota Susan de Oliveira, investigadora na área das literaturas portuguesa e africana de língua portuguesa e áreas periféricas como o rap e formações culturais do hip hop, “nos últimos cinco anos, entre 2011 e 2015, observamos o aparecimento e a frequência de protestos políticos em Angola, notadamente em Luanda, organizados por jovens sem filiação partidária direta ou militância institucional. Em 2013, esses jovens ficaram conhecidos como fundadores do Movimento Revolucionário Angolano (MRA) — na altura, a sua palavra de ordem era ‘32 é demais’ (numa alusão aos anos que Eduardo dos Santos levava de poder) — e fazem parte da geração que soma a herança de duas guerras, a de Independência (1962-1974) e a Civil (1975-2002) e que estão, portanto, vivendo um recentíssimo período de paz ao mesmo tempo que percebendo o limite do que restou do projeto de nação após esses conflitos. Eles são os descendentes dos revolucionários que dedicaram as suas vidas à luta pela independência que culminou no atual regime, o qual se anunciava socialista e democrático em seus primórdios, mas mostrou-se o contrário disso ao longo dos anos”.

É por isso que são os filhos educados e com consciência política e social de Pepetela, António Mosquito, Lopo do Nascimento ou João Beirão que espalham a palavra de ordem exigindo a demissão de José Eduardo dos Santos. Mas não deixa de ser irónico que um regime que continua a ter resultados eleitorais próprios da Coreia do Norte, esteja a abanar por causa da música e das letras de rappers como Ikonoklasta (Luaty Beirão), Dead Prez, Chullage, MC K e Brigadeiro 10 Pacotes (que escreveu a música oficial do primeiro evento de protesto dos jovens, o rap ‘Estado da Nação’ ). Sendo surpreendente, não deixa de ser o eterno regresso, adaptado aos tempos modernos, de todas as lutas, com o poder das palavras a bater-se contra a força das armas. E a ganhar, mesmo sem se conhecer o prazo.

 

Fonte: http://cadernosdalibania.blogspot.pt/2015/10/luaty-beirao-um-heroi-improvavel.html

 

Liberdade JÁ

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Jovens presos em Angola já são vencedores, diz escritor angolano

 

O escritor angolano José Eduardo Agualusa disse hoje, em Óbidos, Portugal, que os 15 jovens presos em Angola já são vencedores, pois conseguiram dinamizar os movimentos pró-democracia no país e levaram o debate para dentro do próprio MPLA.

“O lado positivo desta situação é que se criou um movimento de solidariedade para com os jovens presos políticos, que está em crescente expansão e, neste momento, levou o debate para dentro do próprio partido no poder. Portanto, mesmo dentro do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) hoje há um debate acalorado que tem a ver com esta situação”, disse à Lusa José Eduardo Agualusa.

Segundo o escritor angolano, os jovens, “em particular Luaty Beirão, que está em greve de fome há quase um mês, já venceram porque conseguiram criar esta dinâmica, este movimento pró-democracia e conseguiram levar o debate sobre esta situação para todos os estratos e áreas da sociedade angolana”.

“A prisão dos jovens democratas aconteceu num contexto que acho que todos conhecemos. Eles estavam a ler e discutir um livro e é significativo que tenham sido presos nesse momento, fazendo algo que o próprio Estado devia dinamizar, ou seja, deveria ser o próprio Estado angolano a fomentar a discussão”, sublinhou Agualusa.

“Eu gostaria que todos os jovens angolanos se reunissem para discutir livros e para debater ideias. Os jovens não podem ser penalizados por algo que, pelo contrário, deveriam ser felicitados”, acrescentou o escritor angolano.

José Eduardo Agualusa referiu ainda que “os jovens deveriam ser incentivados a ter este tipo de ações”.

Em causa está a situação de um grupo de 17 jovens – duas em liberdade provisória – acusados formalmente, desde 16 de setembro passado, de prepararem uma rebelião e um atentado contra o Presidente angolano, mas sem que haja uma decisão do tribunal de Luanda sobre a prorrogação da prisão preventiva em que se encontram.

O ‘rapper’ e ativista angolano Luaty Beirão, em greve de fome desde 21 de setembro, foi transferido na quinta-feira de uma cadeia de Luanda para uma clínica privada, por “precaução”, disse hoje à Lusa fonte dos serviços prisionais.

O jovem, de 33 anos, é um dos 15 ativistas detidos desde 20 de junho e acusados em setembro, pelo Ministério Público, de atos preparatórios para uma rebelião e um atentado contra o Presidente angolano.

O escritor angolano disse ainda que a sucessão do Presidente José Eduardo dos Santos no poder em Angola constitui uma “incógnita”.

“O problema é que, realmente, num contexto totalitário como aquele que vivemos em Angola, as sucessões dos dirigentes é sempre complicado. Num contexto democrático não haveria agitação nenhuma, seria absolutamente natural”, avaliou.

“No contexto angolano, infelizmente, o que poderá acontecer, não sabemos. É uma incógnita, tudo pode acontecer. Esperamos que haja alguém, enfim, que o próprio partido no poder consiga retomar o processo democrático e avançar para uma democracia plena, mas a verdade é que tudo pode acontecer, não sabemos”, acrescentou Agualusa.

José Eduardo Agualusa está em Óbidos, onde é o curador da secção de autores no Festival Literário Internacional (FOLIO), que ocorre de 15 a 25 de outubro.

Lusa

Fonte: SIC Notícias

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Luaty Beirão