Exploração Direitos animais caminham a passos lentos na Tailândia

Orangotangos são forçados a lutar boxe em zoológico de Bangkok. Foto: AFP

Com luvas de boxe levantadas, dois orangotangos entram em um ringue em um zoológico de Bangkok, para exibir um espetáculo que fascina os moradores locais e os turistas, mas que fica cada vez mais em desacordo em uma nação que diz abraçar lentamente os direitos animais. As informações são do Bangkok Post.

Todas as manhãs, centenas de turistas visitam o Safari World, um grande jardim zoológico na periferia da capital, para ver macacos realizarem um show no qual parodiam o comportamento humano – em particular a nossa predileção por violência, sexo e álcool.

Fêmeas de orangotango, vestidas em tops e minissaias, fingem seduzir macacos “músicos” enquanto espectadores ruidosos bebem cerveja e jogam latas nos dois orangotangos que lutam no ringue.

Foto: Divulgação“Eu não gosto de nada disso”, disse Erwin Newton, dos Estados Unidos. “Eu não entendo o que pode ser interessante em fazer animais se comportarem desta forma suja e violenta”.

Para os estrangeiros, o tratamento aos animais na Tailândia muitas vezes parece confuso e contraditório.

Neste país profundamente arraigado no Budismo, não é incomum ver cães mimados sendo empurrados em carrinhos de bebê ou templos servindo de santuário para cães e gatos em situação de abandono.

A primeira lei de “bem-estar” animal do país foi aprovada no final de 2014, após anos de campanhas de grupos ativistas de direitos animais cada vez mais expressivas. A lei agora proíbe especificamente “a tortura e a crueldade para com os animais”, com exceção das atividades que são consideradas parte das tradições do país.

De fato, a visão de direitos animais na Tailândia ainda é muito atrasada e incipiente.

Por exemplo, o país se gaba de estar tentando fazer com que a indústria de lutas de animais para entretenimento humano seja “mais humana”.

As autoridades afirmam que agora, a contrário do que ocorre nas Filipinas, onde os galos podem ser vistos nas rinhas com lâminas anexadas aos seus pés, os pássaros explorados em rinhas da Tailândia geralmente têm as suas garras envoltas em tecido.

No país, os galos também passaram a ser julgados pela sua aptidão de combate, e não pela sua habilidade de matar o seu oponente, devido a uma mudança recente.

A Tailândia argumenta ainda que é mais humana em suas lutas entre touros, especialmente populares no Sul do país, pois elas “raramente levam a mortes”, diferente da versão de homens contra touros, que continuam prosperando na Espanha. As autoridades tailandesas defendem-se, além disso, alegando que os seus touros usados nas lutas são tratados com “status de celebridades”.

“Mesmo em lutas entre animais, deve haver regras”, diz Chaichan Laohasiripanya, secretário geral da Sociedade para Prevenção da Crueldade aos Animais da Tailândia. “Eles devem considerar a saúde do animal e a duração da luta”, acrescenta o secretário, em uma visão tipicamente bem-estarista.

Suddan Wisudthiluck, um antropólogo da Universidade de Thammasat, diz que a mudança para tornar as tradições do país mais amigáveis é devida em grande parte às pessoas que mantêm animais de companhia, especialmente nas cidades.

“Animais estão sendo cada vez mais vistos como amigos ou membros da família”, disse ele.

Em Bangkok e outros centros urbanos, salões, hospitais e lojas de roupas para animais domésticos são tão onipresentes como lojas de conveniência e lanchonetes para humanos.

Atos de crueldade para com os animais – especialmente a cães – frequentemente são alvo de indignação e recebem publicidade disseminada.

Em julho, a prisão de um homem que matou o cão de seu vizinho após uma discussão foi notícia em capas de jornais da Tailândia por muitos dias.

E, contraditoriamente, o país continua hospedando um comércio próspero de carne de cachorro na região nordeste para suprir à demanda local e das proximidades como Laos, Vietnã e China, onde o produto é tido como uma iguaria.

Falta de fiscalização

Passeios de elefante são outra atração turística popular, causando inquietação entre os ativistas que chamam a atenção para o fato de que esses animais típicos da Tailândia são forçados a trabalhar até o esgotamento e se estressam por terem que transportar turistas todos os dias.

No final do mês passado, um elefante no norte da Tailândia teve um surto, matando o seu treinador e em seguida fugindo para a mata com três turistas ainda em suas costas, conforme publicado pela ANDA.

Mas a consciência quanto ao seu tratamento tem levado à criação de diversos santuários que se dizem éticos, nos quais os visitantes são encorajados a ver os elefantes livres em seu habitat natural e os passeios não são permitidos.

Segundo a reportagem, outro aspecto em que a Tailândia precisa melhorar é a sua capacidade de fiscalização de cumprimento das leis.

Poucas atrações demonstram de forma mais clara essa limitação que o controverso “templo dos tigres” em Kanchanaburi.

Tratador no templo dos tigres de Kanchanaburi segura o pescoço de um dos 150 tigres do local. Foto: Patipat Janthong
Tratador no templo dos tigres de Kanchanaburi segura o pescoço de um dos 150 tigres do local.

Autoridades contam que têm ameaçado resgatar cerca de 150 tigres que são mantidos confinados no templo sem documentação, o que gerou impasses entre funcionários e “monges zangados” que bloqueiam o seu caminho.

O governo têm mostrado pouca força para resolver esta questão, em parte por temer ser visto confrontando os clérigos e também porque os funcionários prontamente admitem que não têm onde colocar um número tão grande de tigres.

Edwin Wiek, um ativista da ONG Wildlife Friends of Thailand, diz que a jornada pelos direitos animais na Tailândia têm sido conhecida por “dar dois passos à frente e um para trás”, sendo a fiscalização das leis a sua maior preocupação.

“Algumas pessoas se importam apenas com o dinheiro e não hesitam em usar os animais para consegui-lo”, declarou Wiek à AFP. “Mas eu acho que a maior parte dos cidadãos tailandeses ama os seus animais”.

Fonte: ANDA

Anúncios