VÍTIMAS INDIRECTAS Elefantes cativos da Tailândia enfrentam a fome em meio à pandemia de Covid-19

Um elefante adulto consome cerca de 400 kg de alimentos, como erva, folhas, legumes e frutas.

No fim de Março, a Tailândia fechou suas fronteiras para estrangeiros e passou a sofrer uma crise económica visceral com a redução do turismo. Além do aumento do desemprego e a pobreza generalizada da população, a crise trazida pela pandemia também faz vítimas indirectas: elefantes escravizado e aprisionadas por empresas que promovem passeios turísticos.

Impedidas de funcionar, essas empresas estão deixando os elefantes à própria sorte e afirmam faltar recursos para alimentá-los. Segundo o activista Lek Chailert, fundador do Elephant Nature Park (ENP), um santuário para elefantes do país, é uma situação de contrastes que precisa ser combatida. “Estamos muito felizes por que os elefantes não precisam trabalhar, mas o problema é que eles não estão sendo alimentados”, diz.

Na Tailândia, cerca de 2,5 mil elefantes são mantidos em cativeiros e forçados a levar turistas em passeios, além de estarem aprisionados em zoos e circos para performarem truques e entreter o público. A pandemia forçou o fechamento de 85 locais no Norte do país onde elefantes são explorados e a maior preocupação dos activistas é o futuro destes animais.

Segundo dados da World Animal Protection (WAP), cerca de 5 mil funcionários foram demitidos e, agora, além de uma vida de abusos, estes elefantes enfrentam a fome e a negligência. Muitos destes animais foram sequestrados de suas famílias quando eram apenas bebes e submetidos a torturas e treinamentos para serem domesticados a interagirem com os seres humanos. Como consequência indirecta destes maus-tratos, eles são extremamente dependentes de cuidadores e não conseguem sobreviver sozinhos.

Um elefante adulto consome cerca de 400 kg de alimentos, como grama, folhas, legumes e frutas. No entanto, estes recursos naturais estão escassos devido à época do ano, onde há o de um clima seco e a é vegetação escassa, o que, inclusive, tem colaborado para alimentar as chamas de um grande incêndio florestal que atinge a região Norte da Tailândia. Como alternativa, criadores de elefantes estão pedindo ajuda a ONGs e santuários para alimentar os animais.

Chailert e sua equipe recebem pedidos constantes de ajuda. Eles estão alimentando cerca de 20 elefantes aprisionados em acampamentos turísticos e a Save Elephant Foundation está entregando alimentos e suprimentos para pelo menos 668 elefantes em 59 campos em toda a Tailândia. “É difícil para nós. Temos que transportar comida. Nossa equipe precisa cuidar dos animais, e tudo é bastante difícil, porque temos um toque de recolher. Se você sair após o toque de recolher, poderá ser preso”, disse o activista.

Santuários também pedem socorro

Não são apenas os elefantes aprisionados em acampamentos, circos e zoos que correm ricos. ONGs e santuários também sofrem com a falta de recursos. A Wildlife Friends Foundation Thailand (WFFT), que resgata elefantes e outros animais da indústria do turismo e do comércio de animais selvagens na Tailândia, também conta com o pagamento de visitantes para financiar seu trabalho. Sem essa renda, a WFFT está lutando pela sobrevivência dos animais.

O diretor da WFFT, Tom Taylor, disse em entrevista ao portal Mongabay que a organização está sofrendo com a pandemia. “Como em todas as instalações para elefantes (acampamentos e refúgios), perdemos nossa renda ao pagar hóspedes e voluntários. A maioria dos nossos custos de funcionamento diários, incluindo alimentos para animais, geralmente é coberta por nossos hóspedes e voluntários pagantes”, disse o activista.

Taylor acrescenta ainda que além da falta de recursos, houve redução da mão da obra. “Não temos convidados e alguns voluntários no momento. Com 25 elefantes e mais de 700 outros animais para cuidar, estamos lutando para sobreviver. Além disso, nossa força de trabalho no terreno diminuiu drasticamente, de modo que todos nos apressamos. Sim, estamos com algumas dificuldades com os fundos no momento”, apontou.

Fim da escravidão

Embora este seja um momento de união para salvar os elefantes, o ativista em defesa dos direitos animais Schmidt-Burbach, acredita que essa é a ocasião ideal para dialogar sobre a importância do fim da exploração dos animais. “Os elefantes são animais selvagens – não são domesticados – e são animais incrivelmente poderosos e inteligentes. É impossível mantê-los adequadamente em cativeiro. Como resultado, é frequentemente a trágica necessidade de que os elefantes sejam acorrentados, espancados e impedidos de se comportar naturalmente para usá-los no turismo”, aponta.

E completa: “Nossa pesquisa mostrou que as condições de bem-estar para a grande maioria dos elefantes nos campos de turismo são muito ruins. A maior ameaça é a criação desenfreada contínua de elefantes em cativeiro para aumentar ainda mais o número de elefantes turísticos. Mais elefantes significará mais problemas e pior bem-estar”, disse em entrevista ao portal Mongabay.

Chailert, que ajuda os criadores de elefantes a fazer a transição de seus acampamentos para santuários e a encontrar novas fontes de renda, diz que espera que a pandemia forneça uma oportunidade de mudança. “A maioria dos criadores não gosta de mim ou do meu trabalho porque eu falo e luto contra a crueldade. Eles acham que sou eu quem tentou mudar sua tradição. Finalmente, neste momento, eles me contactam e dizem: ‘Por favor, ajude’. Não hesito em ir e trazer nossa amizade a eles. E espero que possamos derrubar paredes e abrir janelas para trabalhar com elas”, conclui o activista.

Fonte: ANDA