CONTEÚDO ANDA Multinacional pressiona EUA a ignorar efeitos nocivos de pesticidas em 1800 espécies ameaçadas

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A multinacional norte-americana de produtos químicos Dow Chemical está pressionando a administração Trump para ignorar descobertas de cientistas federais que revelam os danos de pesticidas amplamente usados a aproximadamente 1800 espécies em perigo ou ameaçadas.

Os advogados da Dow, cujo chefe executivo também lidera um grupo de produção da Casa Branca, e dois outros produtores de organofosforados enviaram cartas aos chefes de três agências do Gabinete. As empresas pediram-lhes para “deixar de lado” os resultados dos estudos governamentais, alegando que eles eram falhos.

O presidente e executivo-chefe da Dow Chemical, Andrew Liveris, é um conselheiro do presidente Donald Trump. A empresa forneceu um cheque de US$ 1 milhão para ajudar a financiar as festividades inaugurais de Trump.

Nos últimos quatro anos, cientistas do governo compilaram um registro oficial com mais de 10 mil páginas mostrando que os três pesticidas analisados – clorpirifos, diazinon e malation – representam um risco para quase todas as espécies ameaçadas de extinção que foram estudadas.

Os reguladores das três agências federais, que compartilham a responsabilidade do cumprimento da Lei das Espécies Ameaçadas de Extinção, devem publicar os resultados em breve. Isso pode estabelecer novos limites para o uso dos pesticidas altamente tóxicos.

O pedido da indústria ocorre depois que o administrador da EPA, Scott Pruitt, anunciou no mês passado que iria reverter um esforço do governo Obama para impedir o uso do pesticida chlorpyrifos da Dow em alimentos. A declaração foi feita após estudos recentes descobrirem que até mesmo minúsculos níveis de exposição poderiam dificultar o desenvolvimento de cérebros de crianças.

Em seu trabalho anterior como procurador geral de Oklahoma, Pruitt se envolveu em muitas disputas legais com os interesses de executivos e corporações que apoiaram suas campanhas estaduais. Ele apresentou mais de 12 ações judiciais que visam acabar com algumas das mesmas regulamentações de que ele agora é acusado de apoiar.

Pruitt recusou-se a responder perguntas de jornalistas. Um porta-voz da agência disse à AP que Pruitt não irá “pré-julgar” quaisquer decisões potenciais e que “estamos tentando restaurar a sanidade regulatória para o trabalho da EPA”.

“Não tivemos reuniões com a Dow sobre este assunto e estamos analisando as petições à medida que chegam, dando uma consideração cuidadosa à ciência sólida e à boa formulação de políticas”, disse J.P. Freire, administrador associado da EPA para assuntos públicos.

Considerando os estudos recentes do efeito do clorpirifos, em humanos, a Dow contratou seus próprios cientistas para produzir uma longa refutação às pesquisas do governo que mostram os riscos a espécies ameaçadas de extinção por organofosforados.

De acordo com a reportagem do Independent, a recente avaliação biológica do clorpirifos realizada pela EPA mostrou que o pesticida “pode afetar adversamente” 1778 dos 1835 animais e plantas analisados, incluindo espécies de sapos, peixes, aves e mamíferos criticamente ameaçados ou em perigo. Resultados semelhantes foram mostrados para os químicos malatião e diazinon.

Em uma declaração, a subsidiária da Dow, que comercializa clorpirifos, disse que seus advogados pediram que a avaliaçã

o biológica da EPA fosse retirada porque sua “base científica não era confiável”.

A FMC Corp, que vende malatião, afirmou que a retirada dos estudos da EPA permitirá o período necessário para a compilação dos “melhores dados científicos disponíveis”.

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A fabricante do Diazinon, a Makhteshim Agan, que usa o nome Adama, não respondeu à solicitação de comentários feita pela reportagem. Defensores do meio ambiente não se surpreenderam com o fato de que as companhias tentarem evitar novas regulamentações que possam prejudicar seus lucros.

Originalmente derivado de um gás desenvolvido pelo regime nazista na Alemanha, o clorpirifos foi pulverizado em frutas cítricas, maçãs, cerejas e outras culturas durante décadas. Ele está entre os pesticidas agrícolas mais usados nos Estados Unidos, sendo que a Dow lucra aproximadamente US$ 5 milhões com suas vendas anuais.

Como resultado, vestígios do químico são regularmente encontrados em fontes de água potável. Um estudo feito em 2012 pela Universidade da Califórnia, em Berkeley, descobriu que 87% das amostras testadas com sangue do cordão umbilical de recém-nascidos continham níveis detectáveis de clorpirifos.

Em 2005, a administração Bush ordenou o fim do uso residencial de diazinon para matar animais considerados pragas, como formigas e vermes, após determinar seu risco para a saúde humana, especialmente para crianças. No entanto, o pesticida é utilizado por agricultores, que o pulverizam em frutas e legumes.

O malatião é amplamente usado para controlar mosquitos e moscas de frutas. É também um ingrediente ativo em alguns shampoos recomendados para o tratamento de piolhos em crianças.

Há anos, uma coalizão de ativistas tem lutado nos tribunais para estimular a EPA a examinar mais atentamente o risco que os pesticidas, especialmente os organofosforados, representam para espécies ameaçadas de extinção e humanos.

“As espécies ameaçadas são o canário na mina de carvão”, disse Hartl. Segundo ele, como muitas das espécies ameaçadas são aquáticas, frequentemente são as primeiras a sofrer os efeitos da contaminação química em longo prazo em rios e lagos usados como fontes de água potável por seres humanos.

A Dow, que gastou mais de US$ 13,6 milhões em lobby em 2016, possui um poder político substancial na capital do país. Não há sinais da diminuição da influência da gigante de produtos químicos.

Quando Trump assinou uma ordem executiva em fevereiro exigindo a criação de forças-tarefa em agências federais para reverter regulamentos governamentais, o executivo-chefe da multinacional estava ao lado do presidente.

“Andrew, gostaria de lhe agradecer por ter inicialmente reunido o grupo e pelo trabalho fantástico que fez”, disse Trump enquanto assinava a ordem durante uma cerimônia.

Rachelle Schikorra, diretora de assuntos públicos da Dow Chemical, disse que qualquer sugestão de que a doação de US$ 1 milhão da empresa ao comitê inaugural de Trump foi planejada para influenciar as decisões regulatórias tomadas pela nova administração está “completamente equivocada”.

Fonte: ANDA

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