Torturar touros e enforcar cães

Texto fabuloso e cheio de ironia de Diogo Faro!

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Peço desculpa pelo título, às pessoas que ainda têm alguns sentimentos e que até apreciam a evolução da civilização, mas vamos ter de falar nisto.
A proposta para a abolição da tourada foi chumbada no Parlamento, como era esperado, convenhamos. E entende-se. Um dos elementos baluarte dos tauromáquicos é que aquela espécie de touros se vai extinguir com o fim da tourada. Os antepassados das pessoas que dizem isto também diziam que a abolição da escravatura ia acabar com todas as pessoas pretas. E veja-se o que aconteceu, hoje em dia só existem brancos, para grande pena do KKK e grupos que tais. O que nos leva a aceitar que há torturas que valem a pena.

O líder parlamentar do CDS apontou para algumas dezenas de pessoas que assistiam à sessão na Assembleia. Vestiam todas blazer de bom corte, camisas engomadas pela criada (provavelmente preta, para tentar ainda salvaguardar a espécie), corte de cabelo irrepreensível (muitos com gel e puxadinho atrás) e algumas ainda envergavam um Terço prateado ao peito, Deus as tenha, provavelmente todas com os seus BMs e Mercedes Pato Bravo estacionados lá fora. E então o líder do CDS falou e disse: “se a tauromaquia é uma fonte de rendimento para tanta gente, como é que estas pessoas vão sobreviver com a abolição da tourada?”. Comovi-me. E aceitei que de se espetar ferros que parecem lanças medievais em touros, se faça um espectáculo lucrativo para manter o estilo de vida destas pobres pessoas.

Agradeço então a todos os deputados que não deixaram a proposta de lei passar. Mais importante que o progresso civilizacional é preservar as tradições – não importa se são selváticas, são tradições e pronto! – e o financiamento dos baldes de gel e botões de punho dourados para aqueles senhores.

Por falar em psicopatia, algo do género que me chegou à retina foi a notícia de ter sido encontrada uma cadela enforcada numa mata em Casal de Cambra. Ah, e foi ainda descoberto que estava grávida. Não me vou alongar para não ficarem com estas imagens na cabeça como eu fiquei. Mas a linha é a mesma. Nós humanos, somos superiores – quem disse? Nós próprios, claro – a qualquer ser e temos o direito divino (?) a fazer com eles o que bem nos apetecer. A questão é, se torturar cães desta maneira for (ou vier a ser) tradição, é para preservar? Provavelmente sim. E com um bocadinho de sorte ainda se usa dinheiro do Estado (aquele que é de todos, sabem?) para se financiar a criação de cães para enforcamento e a televisão estatal ainda começa a transmitir espectáculos disso em horário nobre. Não é boa ideia? Se é para sermos bárbaros, então vamos sê-lo o tempo todo.

Fonte: SAPO24

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A democracia em Coimbra é sobrevalorizada

Vale muito a pena ser lido, este texto de Diogo Faro, sobre a vergonha ditatorial que se passou em Coimbra!


A Queima das Fitas de Coimbra tem várias tradições muito bonitas. Encher a cara de álcool até vomitar o fígado é uma delas, bem como esfregar a genitália em genitália alheia (tudo consentido, calma) sob a protecção das capas negras que os estudantes teimam em achar que os tornam invisíveis só porque estão ligeiramente tapados. São, sem qualquer dúvida, tradições muito bonitas. Mas não tanto como a garraiada, evidentemente.

Numa arena tauromáquica, bem conservada desde provavelmente a altura em que havia tigres dentes-de-sabre e se espancava com uma moca as mulheres que deixavam queimar o guisado de mamute, é lançado um vitelo ou um boi mais para o pequeno, depois de ser devidamente espicaçado e assustado. Depois, toda a tradicional actividade envolve uma data de estudantes, devidamente equipados à estudantes, a correr à frente do boizinho, a correr atrás, dezenas ao mesmo tempo, a picá-lo, a assustá-lo, a tentar agarrá-lo, uma paródia enorme! Aquilo é que é rir a bom rir, não há pai para aqueles galhofeiros!

Mais galhofa que isso, só o conceito de democracia do Conselho de Veteranos da Academia de Coimbra. Ora, a propósito da continuidade da tradicional e bonita garraiada no programa da Queima das Fitas, foi realizado um referendo no qual participaram 5.638 estudantes e 70,7% votaram contra a continuidade desta actividade por acharem, provavelmente, que é estúpido andar a massacrar um boi para ter uma pequenita descarga de adrenalina. Não sou grande coisa a matemática, mas assim por alto parece-me que 3.986 estudantes votaram contra.

Após o referendo, o Conselho de Veteranos, constituído por 27 membros decidiu que a garraiada se mantinha, até porque 70,7% também é mais ou menos o que o Putin teve agora nas eleições e se o mundo fosse um lugar decente teria aparecido alguém que não o deixava continuar no poder. Consigo entender a perspectiva. A democracia é sobrevalorizada e, felizmente, o Conselho de Veteranos achou por bem respeitar tanto a vontade da maioria como qualquer pessoa que sabe aquilo de que o povo realmente precisa, tal como Salazar, Estaline ou Hitler.

Aliás, o 25 de Abril devia ter sido assim. O Marcelo Caetano dizia “Portugueses, votem aí e digam se querem que eu continue à frente deste regime ditatorial”. 70,7% dos portugueses votavam “Não”, e o Marcelo dizia “gostei da vossa opinião, é gira, agora voltem aos vossos postos de trabalho que isto fica tudo como está e eu tenho aqui papelada para tratar que este país não anda para a frente sozinho”.

Assim é que é a democracia em Coimbra, pelo menos para o Conselho de Veteranos, um conselho que sabe melhor o que os estudantes querem do que os próprios 70,7% de estudantes que votaram contra a garraiada, porque são estúpidos.

Éeeeeferreá! A! Éeeeeferreé! É! Xiribitátátáá! Ditaduratátátá! Hurra! Hurra!

Sugestões mais ou menos culturais que, no caso de não valerem a pena, vos permitem vir insultar-me e cobrar-me uma jola:

The Push: Documentário Netflix sobre o quão facilmente somos manipulados pela sociedade.

Até Que as Pedras Se Tornem Mais Leves Que a Água: Depois de ter lido o livro de merda de que vos falei na crónica anterior, tive que voltar ao génio Lobo Antunes para recuperar a sanidade mental.

Fonte: SAPO24