Adoramos todos pagar para haver touradas

Diogo Faro - SAPO 24

Opinião de Diogo Faro

Ou não? Claro que adoramos. Entre financiamento público directo e isenções fiscais, nem se sabe bem ao certo em quanto é que as touradas são ajudadas, mas são uns belos milhões por ano.

E não vos dá um quentinho no coração saber que cada um de nós contribui — 16 milhões de euros, para referir o número estimado pela plataforma “Fim dos dinheiros públicos para as touradas” — para a indústria de espetar ferros no lombo de touros até se esvaírem em sangue, para o nobre e evoluído gáudio do antropocentrismo bacoco? Ai, a mim dá, sim senhor. Quando penso nos impostos que pago, claro que gosto de saber que vão ser usados na educação pública, no SNS, transportes públicos, infraestruturas ou, entre outras coisas, no apoio à cultura (por acaso, este apoio não chega a 1% do Orçamento do Estado, mas quem, que sociedade, é que precisa assim tanto de cultura?). Agora, claro que nada disto é tão prazeroso quanto saber que também financio uma actividade de uma elite de agrobetos cujo propósito maior na vida é uma pretensa superioridade moral em relação a um animal em óbvia desvantagem.

Sendo que para aí 95% dos portugueses ama tourada, que as praças de touros estão sempre a abarrotar de público e que são uma indústria tão forte, — isto tudo segundo os aficionados, claro — poderíamos dizer então que não precisava de quaisquer dinheiros públicos porque se auto-financiava. Verdade. Mas assim, com a ajuda de todos, o lucro que uns poucos ganham ao torturar animais é muito maior. E tendo em conta que se trata de tradição e da verdadeira cultura portuguesa, é até patriótico que assim seja.

Esta semana, o parlamento discutiu a hipótese de se acabar com o financiamento público das touradas. Para bem do país, PS, PSD, CDS, PCP e Chega não permitiram que isso se tornasse realidade. Bem sei que a proposta nem era de proibir totalmente actividades bárbaras, mas não deixa de ser quase tão descabido quanto isso, propor que os milhões que vão para as touradas passassem a ser investidos em habitação, saúde ou educação. Ganhem juízo, por amor de Deus.

Chamem-me ambicioso, quem sabe um louco sonhador, mas acho que agora devíamos ir mais longe e também reservar verbas de dinheiro público para a queima do gato vivo e as lutas de cães. São coisas lindas, enriquecedoras da cultura nacional e que deviam ser pagas com o dinheiro de todos também. Rumo ao progresso, rumo ao futuro, rumo a um país evoluído e em condições. Não é cá como os chineses que comem morcegos e outros bichos estranhos. Que nojo.

Sugestões mais ou menos culturais que, no caso de não valerem a pena, vos permitem vir insultar-me e cobrar-me uma jola:

Why I’m No Longer Talking to White People About Race: um grande e importante livro que explica bem a gravidade do racismo sistémico.

Fonte: SAPO24

Torturar touros e enforcar cães

Texto fabuloso e cheio de ironia de Diogo Faro!

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Peço desculpa pelo título, às pessoas que ainda têm alguns sentimentos e que até apreciam a evolução da civilização, mas vamos ter de falar nisto.
A proposta para a abolição da tourada foi chumbada no Parlamento, como era esperado, convenhamos. E entende-se. Um dos elementos baluarte dos tauromáquicos é que aquela espécie de touros se vai extinguir com o fim da tourada. Os antepassados das pessoas que dizem isto também diziam que a abolição da escravatura ia acabar com todas as pessoas pretas. E veja-se o que aconteceu, hoje em dia só existem brancos, para grande pena do KKK e grupos que tais. O que nos leva a aceitar que há torturas que valem a pena.

O líder parlamentar do CDS apontou para algumas dezenas de pessoas que assistiam à sessão na Assembleia. Vestiam todas blazer de bom corte, camisas engomadas pela criada (provavelmente preta, para tentar ainda salvaguardar a espécie), corte de cabelo irrepreensível (muitos com gel e puxadinho atrás) e algumas ainda envergavam um Terço prateado ao peito, Deus as tenha, provavelmente todas com os seus BMs e Mercedes Pato Bravo estacionados lá fora. E então o líder do CDS falou e disse: “se a tauromaquia é uma fonte de rendimento para tanta gente, como é que estas pessoas vão sobreviver com a abolição da tourada?”. Comovi-me. E aceitei que de se espetar ferros que parecem lanças medievais em touros, se faça um espectáculo lucrativo para manter o estilo de vida destas pobres pessoas.

Agradeço então a todos os deputados que não deixaram a proposta de lei passar. Mais importante que o progresso civilizacional é preservar as tradições – não importa se são selváticas, são tradições e pronto! – e o financiamento dos baldes de gel e botões de punho dourados para aqueles senhores.

Por falar em psicopatia, algo do género que me chegou à retina foi a notícia de ter sido encontrada uma cadela enforcada numa mata em Casal de Cambra. Ah, e foi ainda descoberto que estava grávida. Não me vou alongar para não ficarem com estas imagens na cabeça como eu fiquei. Mas a linha é a mesma. Nós humanos, somos superiores – quem disse? Nós próprios, claro – a qualquer ser e temos o direito divino (?) a fazer com eles o que bem nos apetecer. A questão é, se torturar cães desta maneira for (ou vier a ser) tradição, é para preservar? Provavelmente sim. E com um bocadinho de sorte ainda se usa dinheiro do Estado (aquele que é de todos, sabem?) para se financiar a criação de cães para enforcamento e a televisão estatal ainda começa a transmitir espectáculos disso em horário nobre. Não é boa ideia? Se é para sermos bárbaros, então vamos sê-lo o tempo todo.

Fonte: SAPO24

A democracia em Coimbra é sobrevalorizada

Vale muito a pena ser lido, este texto de Diogo Faro, sobre a vergonha ditatorial que se passou em Coimbra!


A Queima das Fitas de Coimbra tem várias tradições muito bonitas. Encher a cara de álcool até vomitar o fígado é uma delas, bem como esfregar a genitália em genitália alheia (tudo consentido, calma) sob a protecção das capas negras que os estudantes teimam em achar que os tornam invisíveis só porque estão ligeiramente tapados. São, sem qualquer dúvida, tradições muito bonitas. Mas não tanto como a garraiada, evidentemente.

Numa arena tauromáquica, bem conservada desde provavelmente a altura em que havia tigres dentes-de-sabre e se espancava com uma moca as mulheres que deixavam queimar o guisado de mamute, é lançado um vitelo ou um boi mais para o pequeno, depois de ser devidamente espicaçado e assustado. Depois, toda a tradicional actividade envolve uma data de estudantes, devidamente equipados à estudantes, a correr à frente do boizinho, a correr atrás, dezenas ao mesmo tempo, a picá-lo, a assustá-lo, a tentar agarrá-lo, uma paródia enorme! Aquilo é que é rir a bom rir, não há pai para aqueles galhofeiros!

Mais galhofa que isso, só o conceito de democracia do Conselho de Veteranos da Academia de Coimbra. Ora, a propósito da continuidade da tradicional e bonita garraiada no programa da Queima das Fitas, foi realizado um referendo no qual participaram 5.638 estudantes e 70,7% votaram contra a continuidade desta actividade por acharem, provavelmente, que é estúpido andar a massacrar um boi para ter uma pequenita descarga de adrenalina. Não sou grande coisa a matemática, mas assim por alto parece-me que 3.986 estudantes votaram contra.

Após o referendo, o Conselho de Veteranos, constituído por 27 membros decidiu que a garraiada se mantinha, até porque 70,7% também é mais ou menos o que o Putin teve agora nas eleições e se o mundo fosse um lugar decente teria aparecido alguém que não o deixava continuar no poder. Consigo entender a perspectiva. A democracia é sobrevalorizada e, felizmente, o Conselho de Veteranos achou por bem respeitar tanto a vontade da maioria como qualquer pessoa que sabe aquilo de que o povo realmente precisa, tal como Salazar, Estaline ou Hitler.

Aliás, o 25 de Abril devia ter sido assim. O Marcelo Caetano dizia “Portugueses, votem aí e digam se querem que eu continue à frente deste regime ditatorial”. 70,7% dos portugueses votavam “Não”, e o Marcelo dizia “gostei da vossa opinião, é gira, agora voltem aos vossos postos de trabalho que isto fica tudo como está e eu tenho aqui papelada para tratar que este país não anda para a frente sozinho”.

Assim é que é a democracia em Coimbra, pelo menos para o Conselho de Veteranos, um conselho que sabe melhor o que os estudantes querem do que os próprios 70,7% de estudantes que votaram contra a garraiada, porque são estúpidos.

Éeeeeferreá! A! Éeeeeferreé! É! Xiribitátátáá! Ditaduratátátá! Hurra! Hurra!

Sugestões mais ou menos culturais que, no caso de não valerem a pena, vos permitem vir insultar-me e cobrar-me uma jola:

The Push: Documentário Netflix sobre o quão facilmente somos manipulados pela sociedade.

Até Que as Pedras Se Tornem Mais Leves Que a Água: Depois de ter lido o livro de merda de que vos falei na crónica anterior, tive que voltar ao génio Lobo Antunes para recuperar a sanidade mental.

Fonte: SAPO24