Comportamento Ferramentas de pedra usadas por macacos nos fazem repensar singularidade humana

macacoUm macaco pega uma pedra do tamanho de uma batata com suas pequenas mãos, levanta-a por cima da cabeça e bate com toda força em outra pedra fixa no chão. Enquanto repete, de maneira entusiasmada, essa ação várias e várias vezes, lascas começam a sair da pedra que ele empunha. O macaco não dá muita atenção a elas, a não ser quando coloca uma das lascas na pedra fixa e tenta esmagá-la também. Mas, ainda que não tivesse a intenção, ele acabou de produzir artefatos que muito se parecem com as ferramentas de pedra encontradas em alguns sítios arqueológicos humanos.

O macaco, mais especificamente, é um macaco-prego do Parque Nacional da Serra da Capivara, localizado no nordeste do Brasil, onde há muito se sabe que esses animais usam pedras para uma série de atividades, desde abrir castanhas e cavar para encontrar raízes, até para atrair atenção de potenciais parceiros. Outros primatas não humanos, como os chimpanzés do oeste da África, também usam pedras como ferramentas. Mas apenas os macacos-prego da Serra da Capivara são os únicos já observados pelos cientistas que batem pedras umas nas outras para quebrá-las — uma atividade até então considerada exclusiva da família dos humanos. Humanos fazem isso para criar ferramentas pontiagudas para cortar coisas. Os macacos-prego, por outro lado, nunca usam as lascas que fazem. O porquê exato dos macacos quererem quebrar as pedras é incerto, mas eles frequentemente pausam para lamber a superfície da rocha fixa, talvez em busca do pó mineral gerado pelo impacto.

Agora, um estudo examinou as lascas produzidas pelos macacos-prego e as comparou com artefatos feitos por humanos. As lascas se encaixaram nos critérios usados para distinguir ferramentas humanas de pedras quebradas naturalmente. As descobertas, publicadas no dia 20 de outubro na revista científica Nature, podem esquentar o debate sobre sítios arqueológicos controversos no Brasil que, acredita-se, guardam algumas das mais antigas evidências de humanos no Novo Mundo. A descoberta também levanta perguntas sobre o que diferencia humanos de outros primatas, e como nossa linhagem começou a projetar ferramentas de pedra.

Tomos Proffitt, da Universidade de Oxford, e um grupo de colegas foram os autores do novo estudo. Eles observaram os macacos-prego selecionando as pedras que usariam como martelos de um afloramento de pedras, um conglomerado de arenito e pedaços arredondados de quartzo, e testemunharam os animais batendo o martelo de pedra contra as peças arredondadas ainda fixas no conglomerado. Mais tarde, os pesquisadores recuperaram as pedras fragmentadas e coletaram outros artefatos similares encontrados na superfície e em escavações nas área — como fariam caso estivessem escavando um sítio arqueológico humano. Então, eles analisaram os formatos e tamanhos e as cicatrizes naturais causadas pelos impactos. Eles conseguiram até mesmo combinar as lascas com as pedras a partir das quais elas se originaram.

Notavelmente, a equipe descobriu que os artefatos dos macacos-prego exibiam lascas em forma de concha e pontas afiadas, e que os macacos frequentemente removiam múltiplas lascas de uma única rocha — todas as marcas de uma ferramenta feita por humanos. (Os autores notam que os fragmentos de pedra produzidos durante a quebra de uma castanha, diferentemente, não apresentam a maior parte dos critérios necessários, e o mesmo acontece com as lascas produzidas por bonobos em cativeiro que são ensinados a britar.)

Especialistas já haviam, anteriormente, ligados essas características ao surgimento da coordenação e mãos semelhantes a dos humanos , e à mudança na cognição humana. Mas o fato dos macacos produzirem rochas com esses mesmos traços exige uma explicação evolutiva diferente. E se macacos modernos modificam pedras dessa maneira é possível que macacos extintos também fizessem o mesmo, deixando para trás sua própria coleção arqueológica. Assim, arqueólogos precisam refinar os critérios que utilizam para identificar ferramentas intencionalmente produzidas por membros da família humana, argumentam Proffitt e seus colegas.

“Os pesquisadores foram inteligentes ao estudar ferramentas símias da mesma maneira que estudamos ferramentas humanas,” diz a arqueóloga Sonia Harmand da Universidade Stony Brook, que não estava envolvida na nova pesquisa. “Muitas pessoas ficarão surpresas em saber que essas ferramentas podem ser feitas por macacos-prego,” ela acrescenta, apontando que o vídeo produzido pela equipe de Proffitt fornece evidências sólidas. Segundo Harmand, os artefatos do macacos não pareceriam estranhos nos sítios do Leste da África que contém ferramentas feitas por ancestrais humanos em uma das tecnologias mais tradicionais, chamada de Oldowan e que data de mais de 2,6 milhões em um sítio em Gona, Etiópia. As lascas dos macacos-prego se assemelham aos exemplos mais simples de tecnologia Oldowan. Mas outras ferramentas de pedra Oldowan exibem maior sofisticação e planejamento, ela diz. Os artefatos símios também diferem das ferramentas de pedra mais velhas conhecidas, como utensílios de 3.3 milhões de anos que Harman e sua equipe escavaram de um sítio localizado em Lomekwi, no Quênia. As ferramentas Lomekwi são bem maiores e feitas de basalto e fenolite— pedras mais densas do que as rochas de quartzo e quartzito usadas pelos macacos-prego.

Alguns especialistas se perguntam se as lascas dos macacos-prego podem levantar dúvidas sobre se foram os membros da linhagem humana que fizeram as mais antigas ferramentas de pedra. Apesar dos pesquisadores terem atribuído às ferramentas a ancestrais humanos, os sítios não possuem fósseis diagnósticos para estabelecer uma conexão. “Não temos ideia” de quem criou o material em Lomekwi e Gona, diz o arqueólogo Wil Roebroeks, da Universidade de Leiden.

Mas em comentário que acompanha o estudo da equipe na Nature, Hélène Roche, da Universidade Paris-Nanterre declara que as descobertas relacionadas aos macacos-prego não deveriam gerar suspeitas sobre quem produziu as antigas coleções de ferramentas achadas na África. Arqueólogos já estudaram centenas dessas coleções. Muitas delas vieram acompanhadas por ossos com marcas de corte que mostram como elas eram usadas, e fósseis que indicaram que foram ancestrais humanos quem as produziu, entre outras pistas contextuais. Os artefatos dos macacos poderiam, no entanto, inspirar novas análises das misteriosas pedras modificadas encontradas nos sítios arqueológicos de Pedra Furada — próximos à casa dos macacos-prego no Parque Nacional da Capivara — disse Roche à Scientific American.

Arqueólogos debatem sobre os sítios de Pedra Furada há décadas. Alguns afirmam que eles demonstram a presença humana no Brasil há mais de 20.000 anos, muito antes dos Clóvis, por muito tempo considerados os primeiros humanos a colonizaram as Américas, cerca de 13.000 anos atrás; outros, como James Adovasio, da Universidade Florida Atlantic, garantem que as “ferramentas” de lá são apenas pedras quebradas acidentalmente quando caíram de um penhasco e atingiram o chão. “O material da Pedra Furada não estão nem nos padrões dos macacos-prego,” afirma Adovasio.

Andrew Hemmings, também da Florida Atlantic, acredita que excluir a hipótese de ação da gravidade deveria ser a prioridade número um na Pedra Furada. Mas eles suspeita que diferenciar pedras naturalmente quebradas das feitas por macacos-prego talvez seja impossível. “Essa pesquisa ressalta exatamente quão grande é a área nebulosa abrangendo quebra natural de pedras e comportamento intencional de humanos e/ou outros animais,” ele diz.

De sua parte, Eric Boëda, da Universidade de Paris, em Nanterre, que lidera as escavações em Pedra Furada, diz não estar preocupado com o fato de macacos produzirem lascas de pedra. Ele insiste que os artefatos em Pedra Furada são muito mais complexos e diversos que os meros “estilhaços” feitos por macacos-prego, e que suas pedras mostram traços de terem sido realmente usadas em carne plantas.

Pondo de lado a controvérsia de Pedra Furada, os achados relacionados aos macacos-prego somam à crescente lista de descobertas que vem corroendo a linha entre humanos e outros primatas. “Eles ajudam a iluminar as capacidades de nossos irmãos primatas que nós pensávamos que apenas nós e nossos ancestrais imediatos possuíamos,” diz Adovasio. “Nos fazem repensar quão especiais nós realmente somos.”

Existem outras maneiras através das quais o trabalho manual dos macacos-prego e dos humanos é diferente. Pesquisadores concordam que a diferença principal entre os artefatos feitos por macacos-prego e humanos é que os últimos os fabricaram intencionalmente, com um propósito. Para os macacos, as lascas pontiagudas parecem ser subprodutos descartáveis, consequências de sua missão original: pó de quartzo. Para os primeiros humanos, as lascas ajudavam na sobrevivência, facilitando o acesso à comida.

Embora a descoberta dos macacos-prego demonstre que espécies não humanas podem acidentalmente produzir fragmentos de pedra que se pareçam com ferramentas de corte produzidos por humanos, isso não significa que as ferramentas humanas não sejam especiais, adverte Harmand. Mesmo se humanos tiverem começado a criar lascas por engano, como os macacos-prego fazem, algo os fez perceber que eles podiam usá-las para alguma coisa e mesmo fazer novas ferramentas que se adequassem às suas necessidades. Além disso, a tecnologia humana evoluiu das ferramentas simples vistas em sítios de Lomekwi e Oldowan para enxadas com pontas cuidadosamente afiadas um milhão de anos depois, e eventualmente para o maquinário elaborado que temos hoje. Por que a tecnologia não evoluiu também para os chimpanzés e macacos, questiona Harmand. Por que os humanos, sozinhos, levaram isso para esse extremo?

Respostas definitivas para essas perguntas podem se mostrar elusivas. Enquanto isso, Proffitt está ansioso para se aprofundar mais nas atividades dos macacos-prego. “Nós realmente precisamos entender por que os macacos-prego estão tão interessados em produzir e ingerir pó de quartzo, já que esse é um uso muito único de ferramenta entre primatas,” ele diz. É possível que eles estejam comendo o quartzo pulverizado como medicamento, compensando deficiências minerais causadas por parasitas intestinais ou causando danos a esses parasitas com partículas abrasivas desse pó, especula Proffitt.

Ele também quer determinar a quanto tempo os macacos-prego estão usando as ferramentas de pedra desta maneira. Outras evidências demonstram que eles utilizam os pedaços arredondados de quartzo para abrir castanhas por pelo menos 700 anos. E ferramentas de pedra feitas por chimpanzés na Costa do Marfim datam de 4.300 anos atrás. Além disso “nós não temos evidência do que macacos antigos ou grandes primatas estavam fazendo,” observa Harmand. O que deixa muito espaço para mais surpresas no futuro.

Fonte: ANDA

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