A (i)moralidade das touradas

A discussão ética à volta das touradas é um dos debates que gera mais polémica entre os seus defensores e opositores, e que em discussões acaba muitas vezes em insultos e ameaças. Foi o que aconteceu quando Nuno Markl e Ricardo Araújo Pereira decidiram apoiar a campanha “Enterrar Touradas” lançada pela ANIMAL. Os dois humoristas fizeram um vídeo de incentivo para os seus ouvintes assinarem duas petições: uma a favor da “Proibição da Assistência e Trabalho de Menores em Espectáculos Tauromáquicos” e uma outra a exigir a “Proibição de Subsídios Públicos às Actividades Tauromáquicas”. O vídeo gerou imensa polémica e discussão nas redes sociais, com os dois humoristas a serem ameaçados de morte por alguns dos defensores das touradas.

Estas ameaças valem o que valem, mas não deixam de realçar as proporções que esta discussão consegue tomar.

Um dos principais argumentos que os defensores da tourada costumam utilizar como forma de as justificarem é o argumento de que as touradas não devem ser abolidas porque são uma tradição e fazem parte do património cultural. Sim, as touradas até podem ser uma tradição, até aí estou de acordo. Mas até que ponto é que por determinada prática ser tradicional faz com a mesma se torne necessariamente ética?

Muitas tradições foram abolidas ao longo do tempo por serem imorais, aquilo que as touradas são. A mutilação genital feminina também é uma tradição em imensos países.

Será por isso que devemos aceitá-la e continuar a legitimá-la? Ao longo dos tempos a nossa sociedade tem evoluído na tentativa de abolir tradições desse género, apesar de existir ainda muito a fazer. Portanto, o argumento de que uma prática deve ser preservada pelo simples facto de ser uma tradição, não faz qualquer sentido.

Uma crítica que os defensores das touradas fazem aos seus opositores é a de estes não terem legitimidade para as criticar, no caso de comerem carne. Este argumento é inválido porque alimentação e os actos que são praticados nas touradas são coisas completamente distintas. A alimentação é uma necessidade humana, apesar de ser discutível se o Ser Humano deve ou não comer carne. Neste aspecto os defensores das touradas até podem ter alguma razão na denúncia, contudo tal não justifica a tortura que é aplicado sobre o touro durante o espectáculo, onde os maus-tratos que lhe são infligidos não têm outra justificação senão o divertimento e entretenimento dos toureiros e dos seus espectadores. Nunca está em causa a necessidade humana nas touradas. É fundamental que tenhamos isto em conta.

Existe também aquele argumento irónico, onde afinal as touradas até são benéficas para os touros. Dizem que as touradas contribuem para que o touro bravo não seja extinto e que o touro é muito bem tratado até ser o momento de ir para a arena. Relativamente à questão da extinção, não sei até que ponto é que o touro bravo seria mesmo extinto se não existissem touradas, mas quer-me parecer que com esforços para a preservação da espécie, tal não aconteceria. Aliás, deixo mesmo uma questão no ar: se os touros não trouxessem rendimentos aos “aficionados”, gostaria de saber se estes manteriam o mesmo interesse em preservar a espécie. Já na questão da qualidade de vida do touro, até acredito que os touros sejam bem tratados. Contudo, até que ponto é que isso serviria de justificação para as touradas serem legítimas, uma vez que estamos a tratar bem um animal apenas com o intuito de no futuro nos aproveitarmos dele, torturando-o para nosso deleite. Existe também a ideia de que o touro não sofre durante o espectáculo, o que é uma afirmação que cai completamente no ridículo e que é importante desmistificar. Numa arena, um touro sofre uma violência imensa através das farpas que lhe são espetadas, resultando numa tortura lenta que constitui uma enorme humilhação para o touro.

As touradas são uma prática masoquista e eticamente condenável que exercem um efeito negativo na relação das pessoas para com os animais, incitando à violência através de actos que são completamente indiferentes em relação ao sofrimento do animal, o que é extremamente preocupante no reflexo que têm nas atitudes e mentalidade de uma população. É uma prática que não pode ter lugar numa sociedade que dê importância ao bem-estar dos animais e aos seus direitos, o que se reflecte também na personalidade e ideais das pessoas que apoiam as touradas, sejam “aficionados” ou simples apreciadores. Isto é ainda mais preocupante quando vemos crianças a assistir a estes espectáculos e a se reverem nos ideais que lhe são transmitidos, dando assim continuidade a uma tradição de violência.

Compreendo que muita gente nasça dentro de um meio que apoie as touradas, e que desde novos tomem contacto com essa realidade e acabem por rever-se nela. Contudo, enquanto Seres Humanos dotados de uma consciência temos o dever de questionar as touradas, e numa reflexão sobre o assunto percebemos rapidamente que os argumentos dos seus defensores têm imensas falhas e que perante os direitos dos animais e da discussão ética perdem toda a sua razão. Felizmente cada vez mais gente começa a consciencializar-se disso, e acredito que a grande maioria da população seja contra as touradas. Os próprios defensores das mesmas contribuem para tal, muito devido à sua atitude de intransigência, que só demonstram o quão estão errados. Para melhorarmos enquanto sociedade é imperial que tradições imorais como as touradas sejam abolidas.

Ainda há um longo caminho a percorrer, mas felizmente existem cada vez mais indícios de que as touradas, mais tarde ou mais cedo, irão acabar.

Fonte: http://ptjornal.com/a-imoralidade-das-touradas-36010

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