A democracia em Coimbra é sobrevalorizada

Vale muito a pena ser lido, este texto de Diogo Faro, sobre a vergonha ditatorial que se passou em Coimbra!


A Queima das Fitas de Coimbra tem várias tradições muito bonitas. Encher a cara de álcool até vomitar o fígado é uma delas, bem como esfregar a genitália em genitália alheia (tudo consentido, calma) sob a protecção das capas negras que os estudantes teimam em achar que os tornam invisíveis só porque estão ligeiramente tapados. São, sem qualquer dúvida, tradições muito bonitas. Mas não tanto como a garraiada, evidentemente.

Numa arena tauromáquica, bem conservada desde provavelmente a altura em que havia tigres dentes-de-sabre e se espancava com uma moca as mulheres que deixavam queimar o guisado de mamute, é lançado um vitelo ou um boi mais para o pequeno, depois de ser devidamente espicaçado e assustado. Depois, toda a tradicional actividade envolve uma data de estudantes, devidamente equipados à estudantes, a correr à frente do boizinho, a correr atrás, dezenas ao mesmo tempo, a picá-lo, a assustá-lo, a tentar agarrá-lo, uma paródia enorme! Aquilo é que é rir a bom rir, não há pai para aqueles galhofeiros!

Mais galhofa que isso, só o conceito de democracia do Conselho de Veteranos da Academia de Coimbra. Ora, a propósito da continuidade da tradicional e bonita garraiada no programa da Queima das Fitas, foi realizado um referendo no qual participaram 5.638 estudantes e 70,7% votaram contra a continuidade desta actividade por acharem, provavelmente, que é estúpido andar a massacrar um boi para ter uma pequenita descarga de adrenalina. Não sou grande coisa a matemática, mas assim por alto parece-me que 3.986 estudantes votaram contra.

Após o referendo, o Conselho de Veteranos, constituído por 27 membros decidiu que a garraiada se mantinha, até porque 70,7% também é mais ou menos o que o Putin teve agora nas eleições e se o mundo fosse um lugar decente teria aparecido alguém que não o deixava continuar no poder. Consigo entender a perspectiva. A democracia é sobrevalorizada e, felizmente, o Conselho de Veteranos achou por bem respeitar tanto a vontade da maioria como qualquer pessoa que sabe aquilo de que o povo realmente precisa, tal como Salazar, Estaline ou Hitler.

Aliás, o 25 de Abril devia ter sido assim. O Marcelo Caetano dizia “Portugueses, votem aí e digam se querem que eu continue à frente deste regime ditatorial”. 70,7% dos portugueses votavam “Não”, e o Marcelo dizia “gostei da vossa opinião, é gira, agora voltem aos vossos postos de trabalho que isto fica tudo como está e eu tenho aqui papelada para tratar que este país não anda para a frente sozinho”.

Assim é que é a democracia em Coimbra, pelo menos para o Conselho de Veteranos, um conselho que sabe melhor o que os estudantes querem do que os próprios 70,7% de estudantes que votaram contra a garraiada, porque são estúpidos.

Éeeeeferreá! A! Éeeeeferreé! É! Xiribitátátáá! Ditaduratátátá! Hurra! Hurra!

Sugestões mais ou menos culturais que, no caso de não valerem a pena, vos permitem vir insultar-me e cobrar-me uma jola:

The Push: Documentário Netflix sobre o quão facilmente somos manipulados pela sociedade.

Até Que as Pedras Se Tornem Mais Leves Que a Água: Depois de ter lido o livro de merda de que vos falei na crónica anterior, tive que voltar ao génio Lobo Antunes para recuperar a sanidade mental.

Fonte: SAPO24