TRADIÇÃO CRUEL ANDA se junta a mais de 800 entidades internacionais para exigir o fim das touradas

A ANDA (Agência de Notícias de Direitos Animais) em conjunto com mais de 800 entidades que lutam para a construção de um mundo melhor, incluindo diversas organizações em defesa dos direitos animais, do meio ambiente, de mulheres e grupos de veterinários e aposentados assinaram uma carta endereçada às autoridades espanholas pedindo o fim da tortura e exploração de animais em espectáculos tauromáquicos. Entre as centenas de signatários, estão protectores de animais e representantes de santuários de toda a Espanha que abriram suas portas para acolher cidadãos sem tecto, vítimas de violência e animais de pessoas infectadas pela Covid-19 durante a pandemia.

O documento expõe a crise social e económica causada pelo coronavírus e o quanto isso evidenciou a importância dos valores éticos. A carta aponta que “as dificuldades podem servir para nos tornar pessoas melhores” e advogar “valores que unem uma sociedade, como solidariedade e empatia; também para aqueles que não têm voz para se defender”. A coalizão disponibiliza dois anexos preparados pela Associação de Veterinários Abolicionistas Contra Touradas e Abuso de Animais (AVATMA). O primeiro contradiz o argumento da indústria tauromáquica que afirma que a prática é responsável pelo emprego de milhares de pessoas e que sua abolição deixaria uma horda de desempregados.

A AVATMA salienta que o emprego gerado por este sector “é escasso, temporário e inato, deixando claro que o sector de touradas deve ter actualmente outras fontes de renda, além disso, é importante buscar actividades alternativas para se adaptar ao evidente declínio que sofrem”. Uma matéria recente publicada pela ANDA aponta que muito fazendeiros e criadores de touros já estão encerrando contratos com a empresas que promovem touradas e estão investindo em outras fontes de renda por sentirem que a actividade pode estar próxima ao seu fim.

José Enrique Zaldívar, Presidente da AVATMA, destaca que há defasagem no ramo. “Queremos chamar a atenção para o que está incluído no contrato de trabalho do setor e dar ênfase especial às várias categorias em que os ‘líderes de gangues’, ou seja, toureiros, cavalheiros e novilheiros. Dependendo de sua categoria ou grupo, A, B ou C, esses profissionais têm certas obrigações em relação à contratação de suas equipes (picadores, banderilleros, uma espécie de animador de torcida, e garçons). São eles que têm a obrigação de cobrir todas as despesas de seus subordinados e pagar suas folhas de pagamento”, esclarece.

E completa elencando dados probatórios que evidenciam as disparidades desse mercado: “Em 2020, apenas seis toureiros, dois cavalheiros e nenhum novilheiro, seriam obrigados a contratar uma equipe completa (seis pessoas) durante toda a temporada. O número total desses profissionais, ‘líderes de gangues’, que trabalharam em 2019, foi de 385, no entanto, com uma disparidade significativa de ocupação, porque a maioria deles mal estava presente em uma ou duas celebrações. Esses números indicam a volatilidade da mão-de-obra gerada pelo setor de touradas”, afirma.

Na carta, as entidades mencionam ainda que a proibição de touradas se constitui um marco para a evolução da sociedade espanhola. Actualmente, 84% dos jovens declaram não terem orgulho de morar em um país onde as touradas são uma tradição cultural. Dados oficiais sinalizam que o número de celebrações de touradas na praça caiu 58,4% na última década e pesquisas de opinião mostram que 78% dos cidadãos espanhóis se opõem a subsidiar as touradas com dinheiro público. Os signatários do documento querem esclarecimento do porquê a vontade popular é ignorada.

Marta Esteban, do Animal Guardians, destaca que há falta de reflexão e logística. “Por que investir recursos públicos tão preciosos e necessários neste momento em uma actividade que está fadada ao desaparecimento? Não seria mais sábio investi-los em projectos para converter actividades de touradas em outras que não desaparecerão em um futuro não muito distante? Se você realmente quer ajudar as pessoas desse sector, essa seria a melhor ajuda. Investir em touradas é como investir em máquinas de escrever”, sublinha.

O documento alerta ainda para as indicações do Comitê dos Direitos da Criança das Nações Unidas, em 2018, quando instou a Espanha “a proibir a participação de crianças menores de 18 anos como toureiros ou espectadores de eventos de touradas, a fim de evitar os efeitos negativos que a violência dessas práticas cruéis tem sobre a mente e a sensibilidade do desenvolvimento da infância e adolescência”. O caso foi noticiado pela ANDA e levantou questões sobre a banalização da violência e a forma como as crianças são educadas a ignorar o sofrimento de animais indefesos.

A carta traça ainda o interesse social por actividades culturais, onde música (87,2%), leitura (65,8%) e cinema (57,8%) são as mais demandadas, seguidas de visitas a monumentos ou locais (50,8%), participação em exposições ou galerias de arte (46,7%), bibliotecas (26,8%) etc., enquanto as touradas são demandadas apenas em 5,9% da população (Mº. Cultura, 2019). Em 2019, a cidade de Quito, no Equador, transformou uma de suas últimas praças de touros em um centro para a manifestações artísticas e culturais após a pressão de activistas e cidadãos.

A ajuda indireta à indústria de touradas também é mencionada no documento, como o dinheiro proveniente da União Européia através do PAC (Política Agrícola Comum). Em 2014, o eurodeputado holandês Bas Eickhout propôs a suspensão de subsídios concedidos pela União Europeia no âmbito do PAC para a criação de touros para a tauromaquia. O resultado foi de 323 votos a favor, 309 contra e 58 abstenções, o que, infelizmente, não foi suficiente para a aprovação da medida.

Agora, essa forte e consciente coalização espera que a carta sirva como referência para a actualização da legislação e finalmente por fim às touradas, uma prática retrógrada que causa intenso sofrimento físico e psicológico aos animais. Para acessar o documento clique aqui.

Fonte: ANDA

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